---
authors:
- W. E. B. Du Bois
isoListDate: 2023-01-17
isoSourceDate: '1953-03-16'
language: pt
original: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1953/03/16.htm
read_time_minutes: 6
summary: Joseph Stalin foi um grande homem; poucas outras personagens do século XX
  se aproximam de sua estatura. Era um sujeito calmo, corajoso e simples. Raramente
  perdia a compostura; considerava seus problemas lentamente, tomava decisões de maneira
  clara e firme; se, por um lado…
title: A Propósito de Stalin
translator: Red Yorkie
twitter: https://twitter.com/RodericDay/status/1615401930343186457
---
>Este é o obituário que o lendário autor pan-africanista nascido nos EUA, W. E. B. Du Bois, dedicou a J. V. Stalin após a morte deste, em 5 de março de 1953.
>Ele foi publicado no National Guardian, um jornal de esquerda fundado em 1948 em Nova York, que parou de circular em 1992.

---

Joseph Stalin foi um grande homem; poucas outras personagens do século XX se aproximam de sua estatura.
Era um sujeito calmo, corajoso e simples.
Raramente perdia a compostura; considerava seus problemas lentamente, tomava decisões de maneira clara e firme; se, por um lado, jamais se entregava à ostentação, tampouco se abstinha de ocupar seu lugar de direito com dignidade.
Apesar de ser filho de um servo, mantinha-se calmo ante os grandes, sem hesitação nem nervosismo.
Mas também--e esta é a mais elevada prova de sua grandeza--conhecia o homem comum, sentia seus problemas, acompanhava seu destino.

Stalin não era uma pessoa de erudição convencional: era um homem que pensava profundamente, lia de maneira compassiva e ouvia a sabedoria, não interessando de onde viesse.
Ele foi atacado e caluniado como poucos homens poderosos o foram; no entanto, raramente perdia a polidez e o equilíbrio; não permitia que o ataque o desviasse de suas convicções nem que o induzisse a abrir mão de posições que sabia serem corretas.
Como uma das minorias desprezadas da humanidade, ele primeiro colocou a Rússia na senda para derrotar o preconceito racial e criar uma nação de seus 140 grupos sem destruir sua individualidade. [^Stalin1913] [^Boer2016]

Seu julgamento de caráter era profundo.
Ele logo percebeu o que estava por trás da extravagância e do exibicionismo de Trotsky, que enganou o mundo e especialmente os Estados Unidos.
Hoje em dia, toda a atitude malcriada e insultuosa dos liberais nos EUA começa com a nossa aceitação ingênua da deslumbrante propaganda enganadora de Trotsky, que este espalhava ao redor do mundo. [^Trotsky1939]
Contra ela, Stalin manteve-se como uma rocha e não se desviou nem à esquerda nem à direita, à medida que continuava a avançar em direção a um socialismo real em vez da farsa oferecida por Trotsky.

Stalin teve de enfrentar três grandes decisões, e o fez de maneira magnífica: em primeiro lugar, o problema do campesinato, em seguida, o ataque da Europa Ocidental e, por fim, a Segunda Guerra Mundial.
O camponês pobre russo era a vítima mais humilde do czarismo, do capitalismo e da Igreja Ortodoxa.
Ele abandonou o "Paizinho Branco" {Era assim que as tropas russas se referiam ao czar.--R. Y} com facilidade; abriu mão de seus ícones de maneira perceptível, ainda que não imediatamente; mas seus kulaks se agarravam tenazmente ao capitalismo e estavam quase destruindo a revolução quando Stalin correu o risco de uma segunda revolução e expulsou os sanguessugas rurais. [^Tottle1987] [^Tauger2018]

Então veio a intervenção, a contínua ameaça de ataque por todas as nações, interrompida pela Depressão, apenas para ser reaberta pelo hitlerismo.
Foi Stalin quem conduziu a União Soviética entre Cila e Caríbdis: a Europa Ocidental e os EUA estavam dispostos a traí-la ante o fascismo, somente para terem de implorar por sua ajuda na Segunda Guerra Mundial. [^Truman1941]
Uma pessoa menor que Stalin teria exigido vingança por Munique, mas ele teve a sabedoria de apenas pedir justiça para sua pátria.
Roosevelt concordou com isso, mas Churchill desconversou.
O Império Britânico propôs primeiro salvar-se na África e no sul da Europa, enquanto Hitler atacava os soviéticos. [^Munich1938] [^MR1939]

Enquanto o Segundo Front se arrastava, Stalin não hesitou em seguir adiante pressionando.
Ele correu o risco de arruinar completamente o socialismo para destruir as ditaduras de Hitler e Mussolini.
Depois de Stalingrado, o mundo ocidental não sabia se chorava ou aplaudia.
O custo da vitória da União Soviética foi terrível.
Até hoje, o mundo exterior não faz ideia da dor, da perda e dos sacrifícios.
É por sua liderança calma e austera nestas circunstâncias, entre outras, que surge a profunda adoração dos povos de todas as Rússias por Stalin.

Em seguida, veio o problema da Paz.
Ainda que fosse difícil para a Europa e os EUA, era ainda mais difícil para Stalin e os soviéticos.
Os governantes convencionais do mundo os odiavam e temiam, e o que não lhes faltava era vontade de ver o completo fracasso dessa tentativa de criar o socialismo.
Ao mesmo tempo, o medo do Japão e da Ásia também era real.
A diplomacia, portanto, consolidou-se, e Stalin foi escolhido como vítima.
Ele foi convidado para se reunir com o imperialismo britânico, representado por sua aristocracia bem alimentada e treinada; e com a vasta riqueza e poder latente dos EUA, representado por seu líder mais liberal em meio século.

Aqui, Stalin mostrou sua real grandeza.
Não se encolheu nem estufou o peito.
Jamais presumiu. E jamais capitulou.
Fez amizade com Roosevelt e ganhou o respeito de Churchill. [^Butler2015]
Não pediu adulação nem vingança.
Foi equilibrado e conciliatório.
Mas, no que considerava essencial, foi inflexível.
Estava disposto a ressuscitar a Liga das Nações, que havia insultado os soviéticos.
Estava disposto a lutar contra o Japão, ainda que esse país não apresentasse--naquele momento--nenhuma ameaça à União Soviética, e pudesse ser a morte do Império Britânico e do comércio estadunidense.
Mas em dois pontos Stalin foi intransigente:
O "Cordão Sanitário" de Clemenceau precisava ser devolvido aos soviéticos, de onde havia sido roubado como uma ameaça. [^Clemenceau1919]
Os Balcãs não deveriam ser deixados indefesos ante a exploração ocidental para o benefício do monopólio da terra.
Era necessário que os trabalhadores e camponeses de lá fossem ouvidos.

Assim era o homem que jaz morto, ainda alvo de ataques de chacais barulhentos e de homens malcriados de algumas partes do Ocidente destemperado.
Na vida, ele sofreu insultos contínuos e calculados; foi forçado a tomar decisões amargas sob sua própria e solitária responsabilidade.
Sua recompensa vem com a aclamação solene do homem comum.

[^Stalin1913]: Stalin era georgiano, uma minoria étnica dentro do Império Russo. Escreveu uma obra teórica de importância suprema, O Marxismo e a Questão Nacional (1913), que confrontava a tensão entre o nacionalismo e o internacionalismo, e que lhe trouxe renome dentro das fileiras revolucionárias. <https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1913/03a.htm>
[^Boer2016]: Roland Boer traça a influência reverberante da obra teórica e da política decretada de Stalin em *From Affirmative Action to Anti-Colonialism: Stalin and the Prehistory of Post-Colonialism* (2016). <https://digitalcommons.csumb.edu/csp/vol9/iss1/1/>
[^Trotsky1939]: Trotsky chegou até a concordar em falar no Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC) liderado pelo segregacionista ultraconservador Martin Dies em 1939, e escreveu um artigo para a revista Socialist Appeal explicando sua lógica (oposição a "formas totalitárias"). <https://www.marxists.org/archive/trotsky/1939/03/dies.htm>
[^Tottle1987]: Fraude, *Fome e Fascismo: O Mito do Genocídio Ucraniano de Hitler a Harvard* (1987) de Douglas Tottle é um fantástico relato de como a propaganda nazista distorceu completamente o entendimento desse período da história soviética no Ocidente. <https://www.goodreads.com/book/show/589297.Fraud_Famine_and_Fascism>
[^Tauger2018]: Outro documento interessante é a análise de Mark Tauger que desmonta um dos exemplos mais representativos do gênero, o livro *A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia* (2017) de Anne Applebaum. <https://historynewsnetwork.org/article/169438>
[^Truman1941]: Harry Truman, Presidente dos EUA de 1945-53, como senador em 1941, infamemente argumentou: "Se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se virmos que a Rússia está ganhando, devemos ajudar a Alemanha, e, desse modo, deixá-los se matarem o máximo possível." <https://www.nytimes.com/1972/12/27/archives/harry-s-truman-decisive-president-the-lightning-strikes-in-war.html>
[^Munich1938]: Em setembro de 1938, a Alemanha, o Reino Unido, a França e a Itália assinaram o "Acordo de Munique", que permitiu que uma Alemanha nazista abertamente antissemita anexasse a região dos Sudetos da Tchecoslováquia e seus três milhões de habitantes. <https://www.theguardian.com/world/from-the-archive-blog/2018/sep/21/munich-chamberlain-hitler-appeasement-1938>
[^MR1939]: O pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop ("Germano-Soviético") de agosto de 1939 somente foi assinado depois que o Reino Unido e a França rejeitaram a oferta soviética de enviar um milhão de soldados para parar Hitler como parte de uma frente unida antifascista. <https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/russia/3223834/Stalin-planned-to-send-a-million-troops-to-stop-Hitler-if-Britain-and-France-agreed-pact.html>
[^Butler2015]: *Roosevelt and Stalin: Portrait of a Partnership* (2015) de Susan Butler descreve algumas dessas dinâmicas em maior profundidade. <https://www.csmonitor.com/Books/Book-Reviews/2015/0305/Roosevelt-and-Stalin-details-the-surprisingly-warm-relationship-of-an-unlikely-duo>
[^Clemenceau1919]: Em março de 1919, o primeiro ministro francês Georges Clemenceau conclamou os estados que haviam se separado do Império Russo ao longo da Primeira Guerra Mundial a formarem um pacto defensivo, a fim de isolar a União Soviética do resto da Europa Ocidental, e apoiou a iniciativa com a participação francesa em 1921. Ele cunhou o termo cordon sanitaire (cordão sanitário) para se referir a essa aliança. A agressão europeia encetada imediatamente após a revolução de 1917 marcou o início real da assim chamada "Guerra Fria". <https://nationalinterest.org/blog/buzz/yes-it-true-1918-america-invaded-russia-77646>
