A primeira parte deste ensaio foi adaptada de um texto de Sun Feiyang. [1] O restante foi organizado por Roderic Day. Para facilitar a leitura, o ensaio foi redigido em uma única voz narrativa.


A maioria das histórias que ouvimos sobre Tiananmen em 1989 se concentra nos estudantes ativistas, uma vez que eles controlavam a praça Tiananmen e agitavam faixas exigindo “liberdade e democracia”. Porém, a história real dos protestos é um pouco mais complexa.

Para começar, a democracia — estadunidense ou não — estava longe das mentes dos estudantes quando os protestos começaram. As três principais exigências que faziam estavam relacionadas ao controle de preços/inflação, à corrupção oficial e à concorrência no mercado de trabalho.

Em 1980, Deng Xiaoping lançou aquilo que ficou conhecido como Reforma e abertura, numa tentativa de se recuperar do que ele considerava como sendo erros substanciais da “Esquerda” do período precedente. Essas reformas levaram a China a abraçar a economia de mercado, reduzir os programas de bem-estar social e visavam promover a integração com a economia global. Relaxar os controles de preços melhorou enormemente a vida de agricultores chineses e gerou uma elevação na produtividade das colheitas, mas o aumento na renda dos agricultores levou a aumentos nos preços de alimentos básicos nas áreas urbanas. Isso foi ampliado pelos choques inflacionários da década de 1980, que também atingiram a população urbana. “Com os preços dos alimentos e os salários subindo, e o sistema abarrotado de dinheiro, a inflação disparou, chegando a quase 19 por cento em 1988 e em 1989.” [2]

O item indutor desses choques inflacionários foram as reformas propostas pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Zhao Ziyang, que orginalmente foi o alvo da ira dos manifestantes. Histórias de corrupção oficial também haviam unificado várias facções de manifestantes, com folhetos perguntando de maneira acusatória: “Quanto Zhao Ziyang paga para jogar golfe?”

Porém, as preocupações relativas aos preços não eram simplesmente devido aos níveis absolutos de privações. As reclamações foram fortemente marcadas pelo elitismo. Os estudantes e a população urbana não estavam muito satisfeitos em ver camponeses e agricultores em uma situação tão boa em relação a eles. Essa “ansiedade econômica” havia se manifestado um ano antes, em Nanquim, onde estudantes afetados pelos cortes nos subsídios das mensalidades escolares descontaram sua ira nos estudantes de intercâmbio africanos. “De dezembro de 1988 a janeiro de 1989, estudantes em Nanquim realizaram violentos protestos contra os alunos visitantes africanos.” [3] As frases nos cartazes eram muito reveladoras:

Como a maioria dos estudantes estrangeiros, os africanos desfrutavam de um excelente padrão de vida na China, e alguns deles namoravam chinesas. Entre os cartazes no meio da multidão, na véspera do Natal de 1988 em Hehai, havia mensagens exigindo maior democracia ao lado de outras proclamando: “Morte aos diabos negros.” [4]

Embora os protestos fossem normalmente descritos como “liderados por estudantes”, a situação local era bem mais complicada. Organizações de trabalhadores também se reuniram na praça, mas foram recebidas com desprezo:

Os ativistas da Federação Autônoma de Trabalhadores de Beijing viram o mesmo tratamento ser dado ao Sindicato de Trabalhadores da Construção Civil, que, durante um período, esteve localizado no palanque de autoridades na área leste da Praça:

Os estudantes não estavam especialmente desejosos por se encontrar com eles. Constantemente, os piquetes estudantis os dirigiam para longe… Na verdade, muitas pessoas adotam essa atitude em relação a trabalhadores da construção civil originários de vilas, dizendo que eles são detentos trabalhadores.

Apesar da aliança na praça, diferenças educacionais e de classe continuaram prejudicando as relações entre os dois grupos. Os estudantes não eram, afinal de contas, laobaixing [pessoas comuns]. Eles exibiam cautela em relação à articulação das demandas econômicas de outros grupos e queriam manter o movimento exclusivamente sob seu controle. [5]

Longe de ser uma alegação espúria, isso foi confirmado espontaneamente por Wang Dan, um líder estudantil em Tiananmen, em uma entrevista para o New York Times em 1989:

O movimento não está pronto para a participação dos trabalhadores porque a democracia precisa primeiro ser absorvida pelos estudantes e intelectuais antes que eles possam disseminá-la para o resto da população. [6]

Nos primeiros dias, os estudantes chegaram até mesmo a isolar seus protestos, para que as pessoas comuns não pudessem participar com eles. Testemunhas oculares relembram sua experiência:

Os manifestantes na periferia da marcha usavam um barbante cor de rosa para demarcar sua posição. O objetivo era excluir todos os outros manifestantes. Caso não fosse aluno daquela escola específica, você não podia se juntar à marcha deles. Eles não queriam nem mesmo pessoas marchando ao lado deles: andei mais ou menos um quarteirão, perguntando quais eram as demandas deles e o que esperavam alcançar, e eles, basicamente, me mandaram ir catar coquinho. [7]

[A Federação Autônoma de Trabalhadores de Beijing] começou a perder a paciência quando os estudantes na praça começaram a mudar sua atitude em relação a Zhao Ziyang [o Secretário-Geral] e as pessoas próximas a ele.

Tão logo Zhao Ziyang foi [à praça] e chorou, as palavras dos estudantes mudaram. Agora, eles diziam que Zhao Ziyang seria removido do poder, que Zhao Ziyang era bom, que deveríamos protegê-lo. [5]

No entanto, apesar das tensões, os protestos continuaram, e os estudantes descobriram que desfrutavam de grande dose de simpatia, tanto por parte do público em geral quanto por parte do próprio governo (conforme demonstrado pelos editoriais simpáticos nos jornais). E assim a natureza das demandas começou a mudar. A linha dura dentro do movimento passou a defender a ideia de ir além das questões de corrupção e controles de preços, e começou a falar em derrubar o governo. Uma figura de destaque nesse grupo era Chai Ling, uma mulher de 23 anos crítica do Sindicato Autônomo dos Estudantes de Beijing, que ela condenava pela falta de “qualidade de liderança” e pela oposição a greves de fome. Ela se considerava a “comandante em chefe” inflexível da praça. [8]

Há indícios sugerindo que essa não foi uma evolução orgânica. Integrado à liderança do movimento estudantil e trabalhando próximo a Chai Ling estava o homem da CIA na China, Gene Sharp, que escreveu o livro sobre “revoluções coloridas” para os Estados Unidos. [9] Sharp teve até mesmo a audácia de difamar os ativistas trabalhadores e sindicalizados em Tiananmen, afirmando, em entrevistas posteriores, que seriam agentes provocadores do PCCh:

Cedo naquela tarde, ouvimos um discurso bastante provocador em um alto-falante por um suposto “sindicato de trabalhadores autônomos” clamando por violência contra as tropas: “Não deixem nenhum soldado escapar! Matem todos eles!” [10]

Outra importante influência externa, que contribuiu para a intensificação da retórica e da paixão, foi uma visita do Secretário-Geral do PCUS, Mikhail Gorbachev, em maio de 1989. Revelando completa ignorância em relação ao trágico destino que aguardava a população da União Soviética (apenas dois anos após sua visita!), ele se gabava de suas reformas decididamente liberais:

Em um discurso em Beijing, Gorbachev disse à plateia chinesa que a “reforma econômica não funcionará, a não ser que seja apoiada por uma transformação radical do sistema político”. É por isso, ele explicou, que a União Soviética havia realizado eleições concorridas no mês anterior, pela primeira vez em gerações. “Estamos vivenciando um ponto de inflexão muito importante no desenvolvimento do socialismo mundial”, Gorbachev explicou, no qual muitos países socialistas estavam abraçando a liberdade de expressão, proteção de direitos e democracia. Membros da linha dura do governo chinês impediram a transmissão do discurso de Gorbachev. [11]

Tal mudança gradual nos objetivos não obteve amplo consenso entre os manifestantes. Chai Ling e seu então marido, Feng Congde, relataram como enfrentaram inúmeros “golpes” de várias facções:

A impressão que tínhamos é de que as coisas estavam realmente caóticas. Havia uma disputa interminável entre as facções, e as condições sanitárias eram terríveis. Começamos a duvidar de que qualquer coisa de positivo pudesse resultar desse impasse constante. … Muitas vezes, tínhamos de reprimir três ou quatro golpes por dia. À época, eu até brinquei: “Agora, finalmente entendo por que [o Premiê da RPC] Li Peng queria reprimir os estudantes.” [12]

O atrito cobrou seu preço e, em 30 de maio, uma porção significativa dos estudantes deixou a praça. Isso fez com que as lideranças estudantis mudassem sua política de exclusividade e começassem a permitir que trabalhadores anteriormente banidos da praça pudessem protestar, a fim de inflar seus números.

Quando a lei marcial foi declarada, a premissa central dos protestos não estava mais clara. O problema ainda era sobre a corrupção oficial? Inflação? Ou agora era sobre democracia e liberdade de imprensa? As lideranças estudantis moderadas argumentaram que, uma vez que haviam apresentado suas reivindicações, os estudantes deveriam recuar e viver para lutar outro dia. Chai Ling ordenou que ficassem:

Os estudantes continuaram perguntando: “O que devemos fazer agora? Que resultados podemos obter?” Eu me sinto triste, pois, como posso dizer a eles que o que estamos realmente esperando é um banho de sangue, para quando o governo não tiver mais alternativa, a não ser massacrar abertamente o povo. Somente quando a Praça estiver banhada de sangue, o povo chinês abrirá seus olhos. Somente então eles estarão realmente unidos. Mas como explicar isso para qualquer um dos meus colegas estudantes? [12]

Claro, esse era o discurso extremamente corajoso de alguém que já havia adquirido em segredo um visto para os EUA, que enfaticamente dizia que a situação dela era “diferente” e que ela não podia ser sacrificada como os outros estudantes. Em coordenação com as agências de informações da Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Alemanha e outros países colonizadores, a CIA organizou a fuga de Chai Ling e de outros infiltrados importantes no rescaldo dos acontecimentos. Essa história de manipulação e traição cínica é retratada na imprensa ocidental como uma aventura ousada, na qual capitalistas e traficantes de pessoas aparecem como heróis:

Como mais de 500 outros dissidentes chineses ao longo dos últimos sete anos, Wu’er foi resgatado pela Operação Pássaro Amarelo — uma rede subterrânea organizada por uma aliança estranha, que reunia defensores de direitos humanos, diplomatas ocidentais, homens de negócios, contrabandistas profissionais e os reis do submundo de Hong Kong. [13]

Embora morrer como mártires certamente não fosse a intenção de todos os outros estudantes, esse era, sem dúvida, o resultado desejado por Chai Ling. Os estudantes que sentiram que os protestos haviam alcançado parte dos objetivos iniciais (ou que se desiludiram com as lutas internas) votaram com os pés e deixaram a praça. Deve-se um enorme crédito a outras lideranças, como Hou Dejian e até mesmo o finado Liu Xiaobo, por terem convencido os estudantes a saírem pacificamente da praça em 4 de junho, depois de conversar com o exército.


Antes de passarmos para a tragédia, gostaria de ir adiante no tempo.

Os eventos daquele dia adquiriram um lugar notavelmente versátil no imaginário político moderno quando comparados a outros, como a luta contra o apartheid na África do Sul. A retórica abstrata pró-democracia, pró-liberdade dos estudantes permitiu que grupos políticos reacionários celebrassem Tiananmen como um símbolo de protesto contra o socialismo e a liderança do Partido Comunista, ao passo que comentaristas da esquerda liberal, como Naomi Klein, o caracterizam como um protesto socialista contra o capitalismo. Em outras palavras, independentemente da orientação política da pessoa, a China é má.

Acredito que parte dessa ambiguidade pode ser resolvida ao analisarmos as ideias e a trajetória de duas das principais figuras do movimento estudantil: a linha dura Chai Ling e o moderado Liu Xiaobo.

Depois da tragédia, Liu Xiaobo permaneceu na China e continuou sendo um “dissidente” por toda a vida, até sua morte em 2017. Por seus esforços, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2010. Organizações, como a Human Rights Watch, referiam-se às prisões recorrentes dele como o “problema Mandela da China”. [14]

Como seria de se esperar com ele sendo assim chamado, Liu Xiaobo constantemente se via às voltas com leis contra a promoção da derrubada do governo. Porém, as comparações eram sempre complicadas pela diferença gritante entre a política de Mandela e a dele. Como um líder estudantil barulhento em 1988, ele falava em termos elogiosos sobre o colonialismo no contexto do que seria necessário para que a China passasse por uma verdadeira transformação histórica:

[Levaria] 300 anos de colonialismo. Em 100 anos de colonialismo, Hong Kong mudou para o que vemos hoje em dia. Com a China sendo tão grande, claro que seriam necessários 300 anos como colônia, para que ela conseguisse se transformar naquilo em que Hong Kong é atualmente. Tenho minhas dúvidas se 300 anos seriam suficientes. [15]

Mais tarde, como uma figura pública, ele apoiou a invasão do Afeganistão em 2001 e a do Iraque em 2003, ordenadas pelo presidente dos EUA, George W. Bush, além de sua subsequente reeleição. De seus textos públicos:

[Os conflitos do pós-Guerra Fria liderados pelos EUA são os] melhores exemplos de como uma guerra deve ser conduzida por uma civilização moderna… Independentemente da selvageria dos terroristas, independentemente da instabilidade da situação do Iraque e, mais ainda, independentemente de como a juventude patriótica dos EUA possa desprezar apoiadores dos Estados Unidos, como eu mesmo, não hesitarei no meu respaldo à invasão do Iraque. Do mesmo modo como, desde o início, acreditei que a intervenção militar do Reino Unido e dos Estados Unidos seria vitoriosa, ainda creio totalmente na vitória final da Aliança da Liberdade e do futuro democrático do Iraque, e ainda que as forças armadas da Grã-Bretanha e dos EUA encontrem alguns obstáculos, como os que estão enfrentando atualmente, essa minha crença não mudará… um Iraque livre, democrático e pacífico surgirá. [16]

Assim escreveu o líder estudantil moderado que passou a ser conhecido como o “Nelson Mandela chinês”.

E o que dizer da linha dura, a “comandante em chefe da praça”, Chai Ling?

Depois de ser contrabandeada para fora do país, ela recebeu um convite para estudar na Universidade de Princeton, onde cursou relações internacionais na Woodrow Wilson School of Public and International Affairs — não precisamente uma instituição anti- imperialista. A graduação resultou em um emprego glamoroso na Bain & Company, uma das principais empresas de consultoria de gestão. Foi onde ela conheceu seu segundo marido, Robert A. Maginn Jr. Em 1988, ela obteve um MBA na Universidade de Harvard, converteu-se ao cristianismo em 2009 e testemunhou oito vezes perante o Congresso dos EUA contra a China. Na última década, seus vários negócios e instituições de caridade organizaram arrecadações de fundos para políticos decididamente de direita, como Marco Rubio, e seu marido atuou como Presidente do Partido Republicano de Massachusetts de 2011 a 2013. [17]

Em 2015, sua empresa de gestão de software, Jenzabar, foi processada por um funcionário em razão de discriminação religiosa. O profundo envolvimento de Chai Ling com os elementos mais reacionários da política dos EUA foi mais uma vez exposto, desta vez na contratação da analista de assuntos jurídicos da FOX News, Mercedes Colwin, como sua advogada. Os testemunhos colocaram em evidência o modo como Chai Ling exigia que o funcionário dela “buscasse a vontade de deus em sua vida diariamente por meio do estudo da palavra de deus e através de orações, junto com o culto corporativo semanal” e também declarou que o trabalho dela “era o tempo todo motivado e guiado pelos ensinamentos de Jesus Cristo”. [17]

Em outro incidente envolvendo a justiça, Chai Ling tentou suprimir uma entrevista gravada, onde admitiu que esperava propositalmente fazer com que seus colegas estudantes sofressem um banho de sangue, a fim de alcançar a mudança de regime. Ela processou a produtora do filme The Gate of Heavenly Peace (O Portão da Paz Celestial), mas a ação foi considerada tão temerária que ela foi forçada a pagar US$ 500.000,00 em honorários advocatícios para a ré. [18]

Poderíamos prosseguir da mesma maneira em relação a outras lideranças, como Wang Dan:

Hoje, o homem que foi encarcerado por mais de três anos após a repressão do exército chinês, adotou um novo visual. Ele trocou os óculos por lentes de contato, sua bandana por uma gravata e seu alto-falante por um pager. O radical de outrora parece quase entediado por perguntas sobre democracia. Agora, o que ele gostaria é de uma chance de abrir um negócio e ficar rico. […] “A busca da riqueza é parte do ímpeto pela democracia.” [19]

Ao retornarmos a 1989, espero que não haja dúvidas de que esses líderes estudantis eram “combatentes da liberdade” somente na mais conservadora e reacionária tradição estadunidense. Isso é importante não porque queiramos diminuir qualquer simpatia para com as vítimas do dia, mas porque ajuda a explicar a total confiança com a qual a mídia ocidental se moveu para transformar essa memória dolorosa em uma arma de propaganda perversa. Eles simplesmente não teriam feito isso caso essas lideranças estudantis fossem, de fato, revolucionários socialistas, uma vez que isso poderia ter tido consequências indesejáveis.


Muito foi escrito sobre o que a imagem mais icônica do incidente esconde à vista de todos.

Normalmente, o “Homem dos Tanques” é apresentado ao público ocidental como um homem comum tentando parar uma autoridade arrogante e assassina. Na verdade, a imagem mostra os tanques saindo da praça após o incidente. Para além de uma foto assustadora, há um vídeo dessa cena. Ele é raramente veiculado porque demonstra precisamente o oposto do que a nossa mídia deseja comunicar: O “Homem dos Tanques” monta corajosamente no tanque, abre sua escotilha e começa a dialogar com as tropas do lado de dentro. [20]

Uma outra falsificação crucial tem a ver com o fato de que não houve mortes na Praça Tiananmen. Isso foi confirmado por testemunho jornalístico e diplomático à época, mantido em segredo até o vazamento de telegramas diplomáticos privados:

EMBORA O BARULHO DE TIROS PUDESSE SER OUVIDO, GALLO DISSE QUE, ALÉM DE ALGUNS ESTUDANTES TEREM APANHADO, NÃO HOUVE UM TIROTEIO INDISCRIMINADO CONTRA A MULTIDÃO DE ESTUDANTES NO MONUMENTO. QUANDO O ENCARREGADO POLÍTICO MENCIONOU ALGUNS RELATOS DE SUPOSTAS TESTEMUNHAS DE MASSACRES NO MONUMENTO COM ARMAS AUTOMÁTICAS, GALLO DISSE QUE NÃO HOUVE ESSA CARNIFICINA. [21]

Assim, embora o evento esteja cuidadosamente emoldurado para evocar o senso de uma situação semelhante à de Kent State, mas ampliada enormemente, uma situação onde estudantes indefesos são metralhados sem quartel por tropas impacientes, a realidade foi, novamente, algo bem mais complicado do que isso. Um fotojornalista lembra testemunhar algo mais parecido com uma guerra civil:

Vi muitas coisas naquele dia que jamais esquecerei. Um tanque passando sobre dois corpos achatados, um veículo militar de transporte pessoal queimado, e o cadáver carbonizado de um soldado dentro. [22]

Muitas vezes, discussões na mídia social apresentam participantes que questionam a narrativa limpa, compartilhando fotos de incidentes horríveis, mas não consegui encontrar nenhum exemplo dessas imagens serem exibidas para o público em geral pela mídia tradicional. [23]

Jay Mathews, chefe do escritório em Beijing de The Washington Post em 1989, bem mais tarde, confessou como ele e seus pares moldaram a narrativa que se tornou dominante:

Provavelmente, o relato mais amplamente disseminado apareceu primeiro na imprensa de Hong Kong: um estudante da Universidade de Qinghua descreveu metralhadoras dizimando estudantes em frente ao monumento aos Heróis do Povo no meio da praça. The New York Times deu a essa versão uma vitrine proeminente em 12 de junho, uma semana após o evento, mas nenhuma evidência jamais foi encontrada que confirmasse o relato ou comprovasse a existência das supostas testemunhas. O repórter do Times, Nicholas Kristof, questionou o relato no dia seguinte, em um artigo que foi colocado na porção inferior de uma página interna; o mito prevaleceu. O líder estudantil Wu’er Kaixi disse que viu 200 estudantes serem trucidados a bala, porém, mais tarde, ficou provado que ele havia deixado a praça horas antes dos eventos que ele descreveu supostamente teriam ocorrido.

A maioria das centenas de jornalistas naquela noite, incluindo eu mesmo, estavam em outras partes da cidade ou estavam longe da praça. Por isso, não poderiam ter testemunhado o capítulo final do relato do estudante. Aqueles que tentaram permanecer nas proximidades, apresentaram relatos dramáticos que, em alguns casos, sustentaram o mito de um massacre estudantil. [24]

Richard Roth, na CBS News, foi mais sucinto:

Não houve nenhum “massacre na Praça Tiananmen”. Mas não há dúvida de que muitas pessoas foram mortas pelo exército naquela noite nas proximidades da Praça Tiananmen, e quando se dirigiam para lá — principalmente na porção oeste de Beijing. Talvez algumas pessoas possam sentir algum conforto no fato de que o governo nega isso, também. [25]

Devido a sua própria essência e morbidez, o aparato de propaganda simplesmente é incapaz de admitir um crime jornalístico passado, meramente trocando uma velha mentira por uma nova. A contagem oficial de mortos, segundo o governo chinês, é, na verdade, de conhecimento público:

A Municipalidade de Beijing verificou e reverificou todos os números do Comando da Lei Marcial, do Ministro da Segurança Pública, a Cruz Vermelha Chinesa, todas as instituições de ensino superior e todos os hospitais mais importantes. Isso mostrou que 241 pessoas morreram. Esse número incluiu 23 oficiais e soldados das tropas da lei marcial e 218 civis. As 23 mortes militares incluíram 10 do Exército de Libertação Popular e 13 da Força da Polícia Armada do Povo. Os 218 civis (moradores de Beijing, pessoas de outros lugares, estudantes e manifestantes) incluíram 36 estudantes das universidades de Beijing e 15 pessoas de fora de Beijing. [26]

Organismos ocidentais, como a Anistia Internacional, ridicularizam esses números. Sem nenhuma comprovação, mas fazendo referência a toda a mitologia mencionada acima, eles insistem em adotar números que variam de 1.000 a 10.000 mortes. [27]

Primeiramente acusado pelos líderes estudantis de corrução, em seguida, identificado como um aliado por repetidamente romper com o consenso do Partido Comunista em termos de como lidar com a crise, Tiananmen marcou o fim da carreira do Secretário- Geral Zhao Ziyang. [28] Capitalistas e liberais no Ocidente ainda relembram sobre o que poderiam ter conseguido com o “Gorbachev chinês” no timão: “uma figura impressionante com seus ternos ocidentais”, “uma cabeça bem mais aberta do que se esperaria de um líder que veio das fileiras do Partido”, e disposto a “dar um grande salto adiante, para emprestar a expressão deles”. [29] As reformas de mercado existentes continuaram em vigor, mas as lições da liberalização não foram esquecidas, informando a cuidadosa prevenção e tratamento de crises pela China por décadas desde então.

Talvez alguns leitores achem esses esclarecimentos superficiais, beirando a estética, ou que falar neles representa um tipo de picuinha. Afinal de contas, alguns estudantes foram mortos, e nem mesmo o governo nega isso. Realmente importa se o que ocorreu na praça foi uma dramática execução a sangue frio, ou o resultado das escaramuças caóticas ao redor da Praça nas quais o Exército de Libertação Popular teve uma vantagem decisiva? Eu diria que sim. O fato de que o mundo capitalista considerou oportuno selecionar cuidadosamente a memória do evento por tanto tempo, com tão pouca dissenção, deveria fazer com que hesitássemos.

Então, o que mais precisamos fazer para ter um senso da escala dessa tragédia? Uma maneira essencial é, claro, muito menosprezada: a necessidade de compará-lo a outros incidentes similares.

De 18 a 27 de maio de 1980, a ditadura militar da República da Coreia, apoiada pelos EUA, reprimiu o Movimento de Democratização de Gwaingju:

Em 17 de maio de 1980, a lei marcial foi declarada pelas lideranças militares sul- coreanas na tentativa de coibir a crescente demanda popular pela democratização. […] Os números oficiais colocam as mortes em 200, com outros 1.000 manifestantes lesionados. Segundo outras estimativas, porém, na verdade, entre mil e duas mil pessoas foram mortas. [30]

Deveria causar estranhamento entre nós o fato desse incidente comparável não ser ensinado — até onde eu saiba — para ninguém no Ocidente, muito menos algo relembrado anualmente.

Avançando para 1989, em 27 de fevereiro, apenas meses antes de Tiananmen, o governo de direita venezuelano de Carlos Andrés Pérez havia começado a implementar um programa de terapia de choque econômico apoiado pelos EUA chamado A Grande Virada. Isso resultou em uma onda de protestos que durou nove dias, durante a qual manifestantes foram massacrados pelos militares venezuelanos:

Os números oficiais originalmente falam em cerca de 300 mortos, mas grupos de direitos humanos estimam que o número de mortos foi bem maior. Na declaração de terça-feira, o governo disse que aproximadamente 1000 pessoas haviam sido mortas. [31]

Cresci na América Latina e só ouvi falar desse incidente depois que saí de lá. No entanto, uma vez, escrevi um ensaio para a aula de inglês sobre como os mecanismos de busca chineses censuravam imagens de Tiananmen. Quando finalmente comecei a aprender sobre a história real do meu próprio continente, rapidamente descobri que a imprensa de direita se refere a essa atrocidade como “o mito fundador do Chavismo”. [32] Na verdade, as listas de restrições chinesas não passavam de marteladas aleatórias quando comparadas às ferramentas muito mais cirúrgicas do viés e da saturação que eram usadas para moldar a minha percepção durante todo esse tempo.

Mais tarde em 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá, a fim de derrubar um agente que havia feito parte da folha de pagamento da CIA, Manuel Noriega. A Operação Justa Causa, liderada pelo presidente George H. W. Bush, durou mais de um mês, de meados de dezembro ao final de janeiro.

O sismógrafo da Universidade do Panamá marcou 442 explosões de grande porte nas primeiras 12 horas da invasão, cerca de uma grande explosão a cada dois minutos. Incêndios engolfaram a maioria das casas de madeira, destruíram cerca de 4.000 residências. Alguns moradores começaram a chamar o bairro El Chorrillo de “Guernica” ou “pequena Hiroshima”. Logo após o término das hostilidades, tratores cavaram valas comuns onde os corpos eram jogados. “Enterrados como cães”, disse a mãe de um dos civis mortos. [33]

Segundo as forças armadas estadunidenses, 202 civis foram mortos. Segundo as Nações Unidas, foram 500. Para a Comissão pela Defesa dos Direitos Humanos na América Central, foram mortos entre 2.500 e 3.000 civis. [34]

Tal como as lideranças do movimento estudantil de Tiananmen, poderíamos continuar. Qualquer esforço sério de contextualização da tragédia de Tiananmen inevitavelmente retrataria a simples verdade de que o que fez de Tiananmen um evento excepcional na história moderna não teve nada a ver com sua brutalidade, ou que tenha ocorrido em um período que retroativamente imaginávamos ser pacífico, ou com a virtude dos estudantes mortos. O que faz dele um evento anual no calendário da nossa mídia é sua absoluta utilidade em destruir a solidariedade proletária internacional para com a China e, assim, salvaguardar a estabilidade do domínio burguês no Ocidente.

Como é possível que países como o Canadá celebrem anualmente Tiananmen, transmitindo imagens em telas públicas, na América do Norte, retratando a distante China como um império eternamente sinistro de lá do outro lado do mundo, ao passo que as atrocidades nas quais os EUA têm envolvimento direto e indireto são totalmente esquecidas, se não ativamente minimizadas? Obviamente, estamos lidando com um programa ideológico extremamente sofisticado.

Alguns socialistas, contudo, não parecem estar preocupados. Eles consideram um tratamento sério desse dilema deselegante. O mero ato de tentar contextualizar e racionalizar as ações de Beijing é considerado um tipo de crime de pensamento. Se uma justificativa for pedida, eles zurram: “A autocrítica é como demonstramos que somos melhores que os capitalistas!” Contudo, o observador cuidadoso notará que esses críticos ocidentais vociferantes não estão se implicando em crimes, mas implicando socialistas chineses. Não apenas eles negligenciam sua obrigação de responsabilizar seus próprios governantes, como, na verdade, colaboram de maneira ativa e entusiasmada com eles, distorcendo a realidade em fábulas anticomunistas absurdas. Alguns, certamente, estão sendo deliberadamente hipócritas, buscando cavar um nicho permanente para si próprios como oposição compatível ou controlada. Outros, porém, são sinceros em sua crença de que um desejo em condenar o socialismo no exterior faz deles os mais valiosos defensores do socialismo em seus países.

Para o renomado comunista italiano, Domenico Losurdo, no que diz respeito a esses “socialistas”, não estramos lidando com a autocrítica, mas com a autofobia:

Apesar das assonâncias, autocrítica e autofobia constituem duas posições antitéticas. Em seu rigor, e até mesmo em seu radicalismo, a autocrítica exprime a consciência da necessidade de acertar as contas com a própria história; a autofobia é a fuga vil desta história e da realidade da luta ideológica e cultural que sob ela ainda arde. Se a autocrítica é o pressuposto da reconstrução da identidade comunista, a autofobia é sinônimo de capitulação e de renúncia a uma identidade autônoma. [35]

Losurdo argumenta que temos o dever de rejeitar a hegemonia cultural burguesa, na qual “atualmente, categorias, juízos, comparações históricas são todas, em última análise, extraídas da ideologia dominante”. Especificamente, precisamos rejeitar a injunção burguesa de denunciar de maneira espalhafatosa toda a história Comunista, posicionando-nos como melhores do que isso. Ser reconhecido como o arauto idealista de uma utopia inexistente é uma proposta indigna, própria de um bobo da corte.

A tragédia da Praça Tiananmen jamais deve ser esquecida. Ela será lembrada, em toda sua complexidade, nos nossos termos.


  1. Sun Feiyang (Facebook) [web] 

  2. N/A, 2010. China: The Dragon of Inflation. Avaliação pelo grupo de pesquisas estadunidense Stratfor. [web] 

  3. Erin Chung, 2005. Nanjing Anti-African Protests of 1988-89: Anti-Black racism in China. Global Mappings, Universidade Northwestern. [web] 

  4. Phillip W.d. Martin, 2009. The Stain on China’s Pro-Democracy Movement: A Final Word About Tiananmen. The Huffington Post. [web] 

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  9. Marcie Smith, maio de 2019. Change Agent: Gene Sharp’s Neoliberal Nonviolence. nonsite.org [web] 

  10. Gene Sharp, 1989. Killing the Pig to Frighten the Monkey. Entrevista para a Peace Magazine. [web] 

  11. Chris Miller, 2016. The Struggle to Save the Soviet Economy: Mikhail Gorbachev and the Collapse of the USSR. 

  12. Richard Gordon & Carma Hinton, 1995. The Gate of Heavenly Peace. [film] [transcript] 

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