“Queremos fazer negócios.” Sem dúvida, negócios serão feitos.
 — Mao Tsé-Tung, 1949. Sobre a Ditadura Democrática Popular. [1]

Índice

Introdução

Historicamente, os presidentes estadunidenses alcançam seus maiores índices de aprovação em razão de guerras. George W. Bush atingiu o recorde histórico de 90% em 2001, enquanto a nação furiosa se preparava para invadir o Afeganistão, e seu pai, George H. W. Bush, fica em segundo lugar, com 89% em 1991, bem quando os EUA declararam o fim de sua (primeira) invasão do Iraque e a “libertação do Kuwait”. [2] Então, em julho de 2020, quando o Ash Center, da Universidade de Harvard, publicou um estudo sobre a opinião pública chinesa, mostrando que, a partir de 2016, “95,5 por cento dos entrevistados estavam “relativamente satisfeitos” ou “extremamente satisfeitos” com Beijing”, viu-se algo ainda mais notável, tendo em vista o fato de que se tratava de um país em período de paz. [3]

Embora isso tenha chocado plateias ocidentais, que acreditam que a China é um regime autoritário e tirânico de capitalismo estatal, observadores na periferia do Império sempre viram as coisas de maneira diferente. Já desde 2004, Fidel Castro argumentava que “Objetivamente, a China tornou-se a mais promissora esperança e o melhor exemplo para todos os países do Terceiro Mundo,” [4] e, em agosto de 2014, ele reafirmou essa perspectiva otimista: “Xi Jinping é uma das lideranças revolucionárias mais fortes e capazes que conheci na minha vida.” [5] Em maio de 2018, o Professor Yanis Varoufakis, ex-Ministro das Finanças grego, acalmou um membro ansioso da plateia em um Fórum de Cambridge: “Preciso lhe dizer que, para mim, a China é um experimento social muito interessante, no sentido de que, no nível local ou regional, agora, você tem uma democracia ativa, com histórias de sucesso popular na deposição de autoridades locais, burocratas locais que se corromperam.” [6] Mais tarde, nesse mesmo ano, antes de ser derrubado por um golpe apoiado pelos EUA em 2019, Evo Morales disse “Confio muito na China. Ela sempre nos acompanhou em muitas das nossas aspirações nas esferas social, cultural, política e econômica,” [7] e o “apoio e a ajuda da China ao desenvolvimento econômico e social da Bolívia jamais esteve condicionado à adoção de nenhuma política.” [8] Em 2020, o ex-Ministro de Obras Públicas da Libéria, W. Gyude Moore, foi direto quando disse que “A China construiu mais obras de infraestrutura na África em duas décadas do que o Ocidente em séculos. A China também é nossa amiga,” [9] e, em 2021, o Irã assinou um acordo de cooperação de 25 anos com a China. Apesar da insistência veemente dos comentaristas ocidentais, o consenso mundial contra a “tirania” da China não se concretizou.

No centro imperial, também não há carência de testemunhos perspicazes, especialmente fora da propaganda sensacionalista de atrocidades que atualmente congestiona as ondas de radiodifusão. Um memorando de 2021 da Politico instava os formuladores de políticas: “Para se contrapor à ascensão da China, os EUA deveriam se focar em Xi.” [10] Em uma avaliação de junho de 2020, a Casa Branca foi igualmente direta:

Sejamos claros, o Partido Comunista Chinês é uma organização Marxista-Leninista. O Secretário-Geral do Partido, Xi Jinping, acredita ser o sucessor de Josef Stalin. Na verdade, como o jornalista e ex-representante do governo australiano, John Garnaut, observou, o Partido Comunista Chinês é o último “partido comunista no poder que jamais rompeu com Stalin, com a exceção parcial da Coreia do Norte.” [11]

Mensagens vazadas de 2009 oferecem um senso claro do motivo por que Xi Jinping irrita os EUA:

Diferentemente de muitos jovens que “recuperaram o tempo perdido divertindo-se” depois da Revolução Cultural, Xi “optou por sobreviver tornando-se mais vermelho que o vermelho.” … Xi não é corrupto e não liga para dinheiro, mas, poderia ser “corrompido pelo poder”, de acordo com o nosso contato. [12]

Um artigo de 2015, para o New York Times, intitulado “Com ânimo renovado, Maoístas atacam dissidentes na China” demonstra uma ansiedade absoluta:

“Os analistas que acompanham a China precisam parar de dizer que isso é apenas fingimento ou que ele [Xi] está virando à esquerda, para virar à direita”, disse Christopher K. Johnson, um sinólogo no Center for Strategic and International Studies, que anteriormente trabalhou na CIA como analista sênior especializado em China. “Essa é uma parte essencial da personalidade dele. Os esquerdistas certamente acreditam que ele é o cara a ser observado.” [13]

O meu artigo favorito no gênero, no entanto, vem do Guardian. Ilustrando de maneira perfeita a observação de Marx, de que “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”, o artigo de Richard McGregor, “Como o estado controla os negócios na China,” parece genuinamente ignorar o fato de que seu retrato alarmista das provações e tribulações de capitalistas na China é, na verdade, algo realmente animador:

Mas o apoio de Xi à mescla de estruturas de propriedade pública e privada foi puramente pragmático. Isso tinha valor, ele disse em outro fórum, porque iria “melhorar a estrutura econômica de mercado socialista”. A avaliação de Xi é ecoada por Michael Collins, um dos analistas mais experientes da CIA para a Ásia. “O objetivo fundamental do Partido Comunista Chinês sob Xi Jinping é muito mais o de controlar aquela sociedade nos aspectos econômicos e políticos,” Collins argumentou anteriormente este ano. “A economia está sendo avaliada, afetada e controlada para atingir um fim político.”

O principal objetivo do partido, porém, permaneceu inalterado: assegurar que o setor privado e empreendedores individuais não se tornem atores rivais no sistema político. O partido quer crescimento econômico, mas não às custas de tolerar qualquer centro de poder organizado alternativo.

.”[Os capitalistas] agem como se estivessem sendo perseguidos por um urso,” escreveu Zhang Lin, um comentarista político de Beijing, em resposta a esses comentários. “Eles não conseguem controlar o urso, então, estão lutando entre si, para ver quem consegue escapar da fera.” [14]

O horror!

A imprensa burguesa, enunciando os temores de ninguém menos do que seus proprietários, ecoa uma tragédia após a outra:

  • Em alguns momentos, é difícil dizer se a força motriz por trás da política verde da China é um desejo de um ambiente mais limpo, ou uma obsessão com controles sociais. [15]
  • A promessa da China de acabar com a extrema pobreza em 2020 envolve números impressionantes: bilhões de dólares investidos, milhões mudando-se de residências rurais. Mas que não se perca o verdadeiro significado disso: trata-se de uma campanha política para integrar os pobres na economia nacional e treiná-los para que sejam gratos ao Partido. [16]
  • A oposição de Hong Kong foi domesticada. Agora, Beijing está se voltando para combater as discrepâncias econômicas e a falta de moradia a preços módicos, que ela considera ser as causas da inquietação social. Em consideração: reformar a estrutura tributária e aumentar o fornecimento de terras. [17]
  • Um empreendedor chinês pode até dirigir uma Maserati e enviar seu filho para Harvard, mas não passa de um escravo político. [18]
  • Em breve, a China abrirá um novo trecho ferroviário através do Tibete. … Para o partido, parece que nenhuma despesa é grande o bastante em sua campanha para integrar cada vez mais essa região vasta e isolada com o interior. [19]
  • A repressão sofrida pela Didi na China é um lembrete de que Beijing é quem dá as cartas. … Autoridades regulatórias reuniram-se com a Didi e ordenaram a empresa para que assegurasse equidade e transparência no que diz respeito a preços e a renda dos motoristas. [20]

Tomados em conjunto, esses relatos contam uma história muito convincente e direta: um estado operário liderado por um partido de vanguarda colocou as forças produtivas desenvolvidas pelo capitalismo sob o controle humano mais uma vez, para o benefício de muitos em vez do de poucos, e, assim, definitivamente, começou a transição complexa e difícil do capitalismo ao comunismo que chamamos de socialismo. Protegidos e isolados em suas relações com outros seres humanos, os capitalistas não conseguem entender que não são pessoas agradáveis. Por isso, eles têm a cara-de-pau de se fazer de vítimas na imprensa, na esperança de granjear a simpatia das massas, em um esforço inútil de reunir o fervor necessário para uma intervenção militar. A situação parece não ser das melhores para as forças da reação.

E, na sequência, a esquerda ocidental entra em cena com uma litania de recriminações duras, determinada em transformar a China em um vilão digno de guerra: “A China tem bilionários.” “A China ainda tem desigualdade.” “A China ainda tem trabalho assalariado.” “Não há liberdade de expressão lá.” “Redes contra suicídios.” “Tibete livre.” “Xinjiang é o Turquestão Oriental.” “Libertem Hong Kong.” “Nem Washington nem Beijing.” Sua complacência para com a propaganda da atrocidade é inigualável, suplantando, muitas vezes, não apenas as próprias fontes originais, mas até mesmo os reacionários mais rancorosos, em suas paráfrases vãs a respeito do horror chinês.

Em sua visão de mundo do tipo “Davi x Golias”, o heroísmo é caracterizado pela brevidade ou futilidade (Rosa Luxemburgo, a Catalunha anarquista, Leon Trotsky, Rojava, CHAZ em Seattle, Bernie Sanders, o Partido Comunista das Filipinas), ao passo que a vitória e a longevidade são por si mesmas provas de que os princípios foram traídos e o de que o sadismo é a regra (Joseph Stalin, Kim Il Sung, Nicolás Maduro, Deng Xiaoping, Xi Jinping). Embora grupos socialistas no Ocidente tendam a ser seculares, o cristianismo permanece culturalmente hegemônico, a tal ponto que figuras são apreciadas em relação ao modo como se encaixam bem em um modelo de narrativa de martírio. [21]

Diante da tarefa intelectualmente difícil de defender projetos que nem sempre correspondem aos nossos ideais a priori, com o desafio de entender a razão por que eles não corresponderam a esses ideais, muitos optam pela doutrina da traição:

No período ao redor de 1968, circulou amplamente um livro cujo próprio título, Proletários sem Revolução (Carria 1966), se acreditava ser capaz de oferecer a chave para entender a história universal. Sempre inspirado pelos mais nobres sentimentos Comunistas, as massas eram regularmente traídas por seus dirigentes e burocratas. E isso também é paradoxal, pois, o que inicialmente visava ser uma reclamação das massas contra as lideranças e os burocratas, converte-se abruptamente em uma condenação contra as massas. A análise apresenta as massas como sendo completamente idiotas, totalmente incapazes de compreender seus próprios interesses em momentos decisivos. [22]

De fato, é exatamente assim que a espetacular aprovação da liderança do Partido Comunista pelo público chinês mencionada anteriormente é explicada: “Lavagem cerebral.” Entusiasmo é prova de credulidade, e cinismo, de sabedoria – uma profissão de fé hipster, tanto no campo da política, quanto no das artes.

Ao menos para fins da presente análise, iremos rejeitar a doutrina da traição. Aceitaremos os sucessos da Revolução Chinesa como feitos socialistas empiricamente mensuráveis e merecedores de celebração. Analisaremos como socialistas orientais — em particular, Deng Xiaoping — foram modelos autênticos da tradição do socialismo científico ao qual Marx e Engels pertenciam, contra as calúnias lançadas por utópicos ocidentais.

O desejo de abolir hierarquias dará lugar a uma interpretação de Marx que compreende as relações de produção em termos de dominação em vez de mera subordinação, e, portanto, de capital como um “sujeito automático” que precisa ser domado, em oposição a uma praga que precisa ser erradicada. A transição do Feudalismo para o Capitalismo será reexaminada, a fim de desafiar noções idealistas de que uma ruptura completa e imediata do Capitalismo para o Socialismo é possível, o que, por sua vez, ilustrará claramente o motivo pelo qual o Socialismo com Características Chinesas não pode de modo algum ser comparado à Social Democracia, especialmente no que diz respeito ao Imperialismo. E, em lugar da lista de itens do estado de bem-estar social que atualmente tenta se passar por uma definição de socialismo, recuperaremos uma definição muito mais prática e útil, que está centrada no trabalho em vez de no lazer e que, por isso, consegue captar melhor o espírito das inúmeras tarefas que precisam ser realizadas na etapa socialista: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo seu trabalho.”

Sujeito automático

O documentário de John Pilger de 2016, The Coming War on China (A Próxima Guerra Contra a China) documenta o “Giro para a Ásia” dos EUA, iniciado por Obama em 2011 e que está sendo continuado pelas administrações subsequentes. Ele é centrado principalmente nas vítimas da construção de bases militares estadunidenses no Pacífico: as Ilhas Marshall, Okinawa (Japão) e a Coreia do Sul. Ele também entrevista alvos chineses desse acúmulo militar. Sua conversa com Eric Li, um comentarista político e capitalista de risco nascido em Xangai e educado na Califórnia, é fascinante:

Li: No momento, o partido… o estado chinês demonstrou ter uma capacidade extraordinária para a mudança. Faço até uma piada: “Nos EUA, você pode até mudar o partido político, mas não consegue mudar as políticas. Na China, você não consegue mudar o partido, mas consegue mudar as políticas.” Nos últimos 66 anos, a China foi governada por um único partido. No entanto, as mudanças políticas que ocorreram no país nestes últimos 66 anos foram mais amplas, mais abrangentes e maiores do que provavelmente em qualquer outro país importante na memória moderna.

Pilger: Então, nesse período, a China deixou de ser comunista. É isso o que você está dizendo?

Li: Bem, a China é uma economia de mercado, e é uma economia de mercado vibrante. Mas ela não é um país capitalista. Eis o motivo: um grupo de bilionários jamais conseguiria controlar o Politburo tal como controlam as decisões políticas nos EUA. Então, na China, você tem uma economia de mercado vibrante, mas o capital não se sobrepõe à autoridade política. O capital não tem direitos consagrados. Nos EUA, o capital — os interesses do capital e o próprio capital — encontra-se acima da nação estadunidense. Lá, a autoridade política não consegue fazer frente ao poder do capital. É por isso que os EUA são um país capitalista, e a China não é. [23]

O ceticismo de John Pilger, como o de muitos que ignoram o insight de Li simplesmente com base em sua identidade (homem de negócios chinês), parece persistir. No entanto, acredito que o que ele está dizendo aqui é muito mais perspicaz e pertinente do que qualquer coisa que você possa encontrar em qualquer palestra do David Harvey. Por que?

Voltemos aos Grundrisse de Marx:

Na livre concorrência, não são os indivíduos que são liberados, mas o capital. [24]

Além de ser uma brilhante refutação do elogio liberal à “concorrência” em termos abstratos, é notável que, aqui, Marx não contraponha o trabalhador ao capitalista, mas o indivíduo (isto é, o ser humano) ao capital. Caso isto se pareça com uma leitura tendenciosa, considere este fragmento de seus manuscritos de 1844:

A alienação é visível não apenas porque o meu meio de vida pertence a outrem, porque os meus desejos são inatingíveis, pois são a posse de outrem, mas também porque todas as coisas são diferentes de si mesmas e porque (e isso também vale para o capitalista) um poder desumano manda em tudo. [25]

O “poder desumano” e o “capital que é liberado” de Marx constituem a mesma entidade que Eric Li tem em mente quando fala do “próprio capital” e seus “direitos consagrados”. Essa fala, que graciosamente (para mim) beira o sobrenatural, contrasta fortemente com a retórica ao estilo de Bernie Sanders, que debita os problemas nos quais estamos atolados meramente na conta da “ganância corporativa”. A ganância é o vício em questão, claro. Algo a ser execrado e reprimido. Mas todo teórico sério entende que enfrentamos um desafio muito mais grave do que a mera reunião de formuladores de políticas com boa fibra moral.

Vejamos Engels em Sobre a Autoridade:

Se a humanidade, por força da ciência e de seu gênio inventivo, dobrou as forças da natureza de acordo com sua vontade, esta última se vinga ao subjugar a humanidade, na medida em que a emprega, a um verdadeiro despotismo independente de toda organização social. [26]

Vejamos, agora, Lenin em Imperialismo:

Os capitalistas não partilham o mundo em razão de uma determinada perversidade, mas porque o grau de concentração a que se chegou os força a adotar esse método, para que consigam obter lucros. [27]

É útil conceber dois conflitos entrelaçados, porém distintos: o do operário frente ao capitalista, e o da humanidade frente ao próprio capital. O triunfo dos trabalhadores sobre o capitalista (“a cada qual, segundo seu trabalho”) é, em certa medida, uma condição prévia para o triunfo da humanidade sobre o capital (“a cada qual, segundo sua necessidade”).

Para Christian Thorne, “a crítica da economia política [de Marx] começou como a crítica filosófica da religião.” Seu trabalho precisa ser lido por inteiro, mas os paralelos que ele traça são surpreendentes:

(na interpretação hegeliana da alienação)

  1. Os humanos inventaram deus.
  2. Tendo inventado deus, os humanos então atribuíram a ele seus próprios poderes de criação.
  3. Tendo projetado ideias em uma entidade não-humana e inventada, os humanos então se subordinaram a ela.

(na crítica de Marx ao capitalismo)

  1. As pessoas criam o capital. Tudo o que conta como capital é uma criação humana.
  2. Tendo criado o capital, as pessoas então atribuíram a ele os poderes de criação.
  3. Assim que os poderes criativos do trabalho foram erroneamente atribuídos ao capital, os verdadeiros trabalhadores foram subordinados a ele. [28]

Esse é o capital como sujeito automático. Um tecnófilo pode chamá-lo de algo similar a uma inteligência artificial baseada no mercado surgida de uma importante racionalidade teórica de jogos. Alguém, como Fidel Castro, apresenta o capital de maneira mais poética, mas acredito que ele estava lidando com o mesmo demônio [ênfase minha]:

Você diria que o capitalismo, com suas leis cegas, com sua mesquinharia como princípio fundamental, nos deu algo a emular? O ser humano deveria ter a possibilidade de traçar seu próprio destino, de planejar sua própria vida, de empregar recursos humanos e naturais de maneira racional, em vez desta corrida insana que nos levou — e que vai nos levar — a lugar nenhum. Por isso, não consigo entender por que as pessoas falam a respeito do canto do cisne do socialismo. Identifico o socialismo com novas ideias, com avanço, com progresso, com a capacidade do homem de planejar sua vida, planejar sua sociedade, projetar-se em direção ao futuro. [29]

Eis a minha formulação preferida:

Os senhores feudais foram os mestres do feudalismo. Os capitalistas, porém, não são os mestres do capitalismo. Eles são meramente os alto sacerdotes do capitalismo. O mestre do capitalismo é o próprio Capital. [30]

Agora, seria um equívoco presumir que estamos simplesmente presos em razão de vínculos mentais, como muitos daqueles que implorariam para que as massas simplesmente “despertem” frequentemente parecem acreditar. Ambos, Marx e Engels, foram enfáticos em rejeitar tal noção:

Só é possível conquistar a libertação real no mundo real e empregando meios reais; a escravidão não pode ser abolida sem a máquina a vapor, a mule e a spinning-jenny, nem a servidão sem a melhora da agricultura, e, em geral, não é possível libertar os homens enquanto eles não puderem obter comida e bebida, habitação e vestimenta, em qualidade e quantidade adequadas. A “libertação” é um ato histórico e não mental, e é o resultado de condições históricas, do desenvolvimento da indústria, do comércio, da agricultura, das condições de intercâmbio. [31]

Será possível abolir a propriedade privada de uma única vez? Não. Do mesmo modo que as forças produtivas existentes não conseguem de uma tacada se multiplicar na medida necessária para a criação de uma sociedade comunal. Muito provavelmente, a revolução proletária transformará gradualmente a sociedade existente e conseguirá abolir a propriedade privada somente quando os meios de produção estiverem disponíveis em quantidade suficiente. [32]

A necessidade de transcender esta etapa miserável de desenvolvimento histórico é urgente. No entanto, a história tem mostrado que a liquidação local da classe capitalista não é suficiente. Ao testemunhar as dificuldades da União Soviética, Trotsky e seus seguidores zombaram do “Socialismo em um só país”, somente para pregarem a porcaria fantástica da revolução permanente em escala mundial.

Nesse contexto, começamos a entender o gênio por trás do número de equilíbrio arriscado, mas claramente compensador, que o Partido Comunista da China tem administrado ao longo das últimas quatro décadas, desde que Deng iniciou o processo de Reforma e Abertura. Vejamos a trajetória traçada por Losurdo:

  • Mao, 1958 (respondendo à crítica da União Soviética referente à persistência de áreas capitalistas na economia chinesa): “Ainda há capitalistas na China, mas o estado se encontra sob a liderança do Partido Comunista.”
  • Deng, 1978: “Não permitiremos que uma nova burguesia se forme.”
  • Deng, 1985: “É possível que uma nova burguesia emerja? Um punhado de elementos burgueses pode aparecer, mas eles não formam uma classe.” [33]

Como se encontra a situação desde 2018? A caneta assustada de McGregor novamente se prova muito perspicaz:

Um estudo recente do Departamento de Organização Central, o órgão de recursos humanos do partido, revelou que 68% das empresas privadas da China tinha células do partido em 2016, contra 70% das empresas estrangeiras. Embora esses números pareçam altos, eles não atendem às metas que o partido se colocou. Em Zhejiang, província bastante conhecida de Xi, por exemplo, em agosto de 2018, dirigentes definiram uma meta de incluir células em 95% das empresas privadas. Havia a necessidade, segundo a pesquisa, de reter o espírito revolucionário dentro das empresas conforme sua propriedade era passada para a próxima geração. [14]

Não importa o quanto Ocidentais ou, até mesmo, Soviéticos consideravam esse compromisso repulsivo. Uma boa teoria científica consegue fazer previsões acuradas e assumir riscos com base na confiança em princípios basilares. Deng está transbordando de confiança em sua entrevista com Oriana Fallaci em 1980:

Fallaci: Mas isso não é simplesmente a emergência de um novo capitalismo, em miniatura?

Deng: Digamos que os princípios que estamos seguindo conforme reconstruímos este país sejam essencialmente os mesmos que foram formulados na época do Presidente Mao: concentrarmo-nos nos nossos pontos fortes e considerarmos o auxílio internacional como um fator subsidiário e nada mais. Qualquer que seja a amplitude da nossa abertura para o mundo — qualquer que seja o modo como usamos o capital estrangeiro ou aceitamos a ajuda de investimentos privados — essa ajuda constituirá somente uma pequena parte da economia chinesa. Em outras palavras, o capital estrangeiro — inclusive o fato de que estrangeiros construirão fábricas na China — não influenciará de maneira alguma o nosso sistema, que é um sistema socialista baseado na propriedade pública dos meios de produção. Apesar disso, estamos cientes de que a influência decadente do capital inevitavelmente se desenvolverá na China. Bem, não acho que isso seja uma coisa tão terrível. Não acho que seja correto ter medo disso. [34]

E, então, novamente, em 1984:

Abrimos 14 cidades costeiras de médio e grande porte. Damos as boas-vindas ao investimento estrangeiro e a técnicas avançadas. A gestão também é uma técnica. Elas irão debilitar o nosso socialismo? É pouco provável, porque o setor socialista é o carro-chefe da nossa economia. A nossa base econômica socialista é tão gigantesca que pode absorver recursos estrangeiros no valor de dezenas e centenas de bilhões de dólares sem sofrer grandes consequências. O investimento estrangeiro, sem dúvida, servirá como um importante suplemento na construção do socialismo no nosso país. E, do jeito que as coisas estão agora, esse suplemento é indispensável. Naturalmente, alguns problemas surgirão na esteira do investimento estrangeiro. Mas seu impacto negativo será bem menos significativo do que o uso positivo que podemos fazer dele, a fim de acelerarmos o nosso desenvolvimento. Ele pode envolver um pequeno risco, mas não muito.

Bem, estes são os nossos planos. Deveremos acumular novas experiências e experimentar novas soluções, conforme surjam novos problemas. De maneira geral, acreditamos que o curso que escolhemos, ao qual chamamos de construir o socialismo com características chinesas, é o correto. Seguimos esse caminho há cinco anos e meio e obtivemos resultados satisfatórios; de fato, o ritmo de desenvolvimento até agora ultrapassou as nossas expectativas. Caso sigamos dessa maneira, conseguiremos alcançar a nossa meta de quadruplicar o PIB chinês até o final do século. E, com isso, posso dizer aos nossos amigos que, agora, estamos ainda mais confiantes. [35]

E, mais uma vez, em 1985:

Recapitulamos a nossa experiência na construção do socialismo ao longo das últimas décadas. Não fomos muito claros a respeito do que é o socialismo e do que é o marxismo. Outro termo para o marxismo é comunismo. É para a realização do comunismo que temos lutado por tantos anos. Acreditamos no comunismo, e o nosso ideal é fazer com que ele se torne realidade. Nos nossos piores dias, fomos sustentados pelo ideal do comunismo. Foi para a realização desse ideal que inúmeras pessoas deram suas vidas. Uma sociedade Comunista é aquela onde não há exploração do homem pelo homem, na qual há grande abundância material e onde o princípio de cada qual, segundo sua capacidade, a cada qual, segundo sua necessidade é aplicado. É impossível aplicar esse princípio sem uma enorme riqueza material. A fim de realizar o comunismo, precisamos implementar as tarefas definidas na etapa socialista. Elas são incontáveis, mas a tarefa fundamental é desenvolver as forças produtivas, a fim de demonstrar a superioridade do socialismo sobre o capitalismo e oferecer a base material para o comunismo. [36]

Não faz o menor sentido, em termos práticos ou teóricos, não dar o devido crédito a Deng por sua confiança no povo chinês, no Marxismo-Leninismo e no Pensamento Mao Tsé-Tung, e no centralismo democrático como uma linha de defesa contra o subterfúgio capitalista. As pessoas que corretamente reconhecem as inovações de Lenin com base em Marx e Engels, mas que rejeitam as contribuições de Deng, simplesmente estão praticando chauvinismo.

A transição

Entre a sociedade capitalista e a comunista, existe o período da transformação revolucionária de uma para a outra. Correspondendo a isso também há um período de transição política no qual o estado não pode ser nada, a não ser a ditadura revolucionária do proletariado.
 — Karl Marx, Crítica ao Programa de Gotha. [37]

Não há prova melhor da vitória moral e material da República Soviética Russa sobre os capitalistas de todo o mundo do que o fato de que as potências que pegaram em armas contra nós — em razão do nosso terror e de todo o nosso sistema — foram compelidas, contra sua vontade, a entabular relações comerciais conosco, sabendo que, ao fazer isso, estão nos fortalecendo. Isso poderia ter sido apresentado como prova do colapso do comunismo somente se tivéssemos prometido, apenas com as forças da Rússia, transformar o mundo inteiro, ou se tivéssemos sonhado em fazê-lo. Contudo, jamais acolhemos ideias tão malucas, e sempre dissemos que a nossa revolução será vitoriosa quando for apoiada pelos trabalhadores de todos os países.
 — V. I. Lenin na Conferência da Gubernia de Moscou do Partido Comunista Russo (Bolchevique). [38]

“Cruzar o rio sentindo as pedras.”
 — Xi Jinping citando Deng Xiaoping, O Materialismo Dialético é a Cosmovisão e a Metodologia dos Comunistas Chineses. [39]

Em outro artigo, observei que uma das vulgarizações mais ordinárias e ridículas do Marxismo que continuo encontrando é a compressão de toda história passada e presente no “proprietarianismo” e do futuro brilhante à frente no “igualitarismo”. Retratar o socialismo como idílico e tudo o que veio antes como diabólico pode ser muito bom como um slogan em uma manifestação, mas ignora realidades complexas com importantes lições para todo revolucionário.

Considere essa conversa entre H. G. Wells e J. V. Stalin:

Wells: Os Cartistas [um movimento da classe trabalhadora que defendia o sufrágio universal masculino na Grã-Bretanha, 1838-57] não fizeram muito e desapareceram sem deixar traço.

Stalin: Discordo. Os Cartistas, e o movimento grevista por eles organizado, tiveram enorme importância; eles forçaram a classe dominante a fazer várias concessões referentes ao voto, à abolição dos assim chamados “distritos eleitorais podres” e a alguns pontos da “Carta”.

O papel histórico do Cartismo não foi pouco importante e compeliu uma parte das classes dominantes a fazer algumas concessões, reformas, a fim de evitar grandes conflitos. Falando genericamente, é preciso dizer que, de todas as classes dominantes, as da Inglaterra, tanto a aristocracia quanto a burguesia, provaram-se as mais inteligentes, as mais flexíveis do ponto de vista de seu interesse de classe, do ponto de vista de manter seu poder. [40]

Nos EUA, na França, na Rússia: guerra civil e derramamento de sangue. Na Grã-Bretanha: colaboração. Diferentemente de muitos dos que o defendem atualmente, Stalin não tinha problema algum em valorizar e retirar lições de outros estrategistas. Ele morreu em 1953, e não viveu para ver capitalistas em toda a Europa Ocidental e no Canadá sufocarem afetuosamente o fervor revolucionário incipiente em seus países com um misto de operações secretas da CIA e subornos para pacificar a classe trabalhadora:

As elites oferecem concessões políticas quando se veem frente a ameaças críveis de revolução. A Revolução Bolchevique de 1917 e a formação subsequente do Comintern [a Internacional Comunista] aprimoraram as percepções das elites com relação à ameaça revolucionária, ao afetar a capacidade e a motivação dos movimentos operários, além da natureza e da interpretação, por parte das elites, dos sinais informativos. Esses desdobramentos incentivaram as elites a oferecer concessões políticas para trabalhadores urbanos, notavelmente reduzindo as horas de trabalho e ampliando os programas de transferência social. Estados que se viram às voltas com essas ameaças ampliaram várias políticas sociais em medida bem maior do que em outros países, e algumas dessas diferenças persistiram por décadas. [41]

Infelizmente, a previsão de Stalin não se concretizou:

O que teria acontecido se o capital tivesse conseguido esmagar a República dos Sovietes? Uma era do pior reacionarismo teria se instalado em todos os países capitalistas e coloniais, a classe trabalhadora e os povos oprimidos teriam sido agarrados pela garganta, e as posições do comunismo internacional teriam sido perdidas. [42]

A história pós-Soviética demonstrou que a União Soviética realmente foi a linha de defesa do movimento socialista internacional, até mesmo e especialmente para aqueles que optaram pelo não-alinhamento e se engajaram em condenações duras e performáticas de sua crueldade. Ainda hoje, sindicalistas e sociais-democratas no Ocidente olham para trás em vez de para fora, quando tentam entender sua própria história. Eles nunca entenderam que estavam tirando proveito do resplendor da revolução feita por outros.

A diferença crucial entre as Sociais-Democracias Ocidentais e o Socialismo com Características Chinesas está precisamente na relação de dominação. Tanto as primeiras quanto as últimas apresentam características similares: alguns capitalistas prosperam, algumas políticas sociais são aprovadas. Um idiota concluiria sua análise aqui, declarando que os dois são iguais. Precisamos nos perguntar: qual é a diferença?

Foi necessária uma revolução para que a classe trabalhadora chinesa conquistasse o poder e demonstrasse a impressionante seriedade com que ela exerceria esse poder. Depois de fracassos trágicos, porém, eles corrigiram o rumo. Nos anos 1980, demonstraram flexibilidade em aprender com o inimigo. Então, durante a década de 2010, corrigiram o rumo novamente, conquistando vitórias que haviam sido semeadas anteriormente. O Partido Comunista jamais cedeu o poder que foi obtido com tanto sacrifício. Por outro lado, as classes trabalhadoras ocidentais jamais saborearam o poder, apenas concessões. Infelizmente, isso foi mais do que suficiente para pacificá-los. Depois que a disciplina revolucionária foi transformada em anacronismo, toda uma mitologia entrou em cena. Ela alimentou os piores vícios das classes trabalhadoras ocidentais: a autoglorificação e a supremacia branca. Exércitos de acadêmicos bem pagos reescreveram a história do século XX, e retrataram a abordagem suplicante e fadada ao fracasso como o trabalho de um gênio antiautoritário.

Exemplos concretos apoiam a teoria de que o sistema político chinês é realmente distinto. Em outro ponto da entrevista com Wells, Stalin faz a seguinte observação:

Agora, a sociedade capitalista está em um beco sem saída. Os capitalistas estão procurando, mas não conseguem encontrar, uma rota de fuga desse beco sem saída que seria compatível com a dignidade dessa classe, compatível com os interesses dessa classe. Em alguma medida, eles poderiam sair dessa crise rastejando, mas não conseguem encontrar uma solução que lhes permitiria sair dessa situação com altivez, de um jeito que não incomodasse de maneira fundamental os interesses do capitalismo. [40]

Agora, vejamos os seguintes trechos do artigo do jornal britânico Guardian, mencionado acima:

Para ter uma ideia do poder do partido na China, basta ouvir a pregação de empreendedores abastados sobre política. Esses CEOs — de outro modo poderosíssimos — se rebaixam aos mais abjetos níveis, para elogiar o partido. Para mencionar algumas empresas listadas em um único artigo no jornal South China Morning Post, Richard Liu do grupo de e-commerce JD.com previa que o comunismo seria realizado em sua geração e todas as empresas comerciais seriam nacionalizadas. Xu Jiayin, do Evergrande Group, uma das maiores incorporadoras imobiliárias da China, disse que tudo o que a empresa tinha foi dado pelo partido e que ele tinha orgulho de ser o secretário do partido em sua empresa. Liang Wengen, da Sany Heavy Industry, que fabrica escavadeiras, foi ainda mais longe, dizendo que sua vida pertencia ao partido. [14]

Assim como a falta de dignidade dos trabalhadores estadunidenses não é meramente superficial, mas sintomática, o mesmo é válido para a falta de dignidade dos capitalistas chineses. A execução periódica de capitalistas corruptos e a humilhação de Jack Ma importam. Intelectuais chauvinistas de “esquerda” podem desconsiderá-las como sendo algo para inglês ver, mas os capitalistas ocidentais, acostumados à impunidade, entendem o recado em alto e bom som. O orgulho ou a humilhação experimentadas por diferentes classes diz mais sobre o caráter de classe de um estado do que divagações sobre a sinceridade de seus líderes.

O tratamento dado à COVID-19 é outro exemplo poderoso. [43]

Porém, a área em que o controle do Partido Comunista é mais visível é na política externa da China, onde a paz e o multilateralismo aparecem em nítida oposição à busca pelo lucro depravada e desumana do capitalismo. A China é simultaneamente criticada pelo establishment ocidental — por ser um invasor superpredador — e repreendida pelos ultraesquerdistas ocidentais — por não exportar a revolução. Ao testemunharem os EUA instalarem e apoiarem abertamente regimes reacionários, como o de Añez, na Bolívia, e o de Bolsonaro, no Brasil, socialistas ocidentais criticam a China por deixar de retaliar na mesma moeda. Xi Jinping respondeu de maneira categórica em 2012:

“Em meio à crise financeira internacional, a China ainda conseguiu resolver o problema de alimentar seus 1,3 bilhão de habitantes, e essa já foi a nossa maior contribuição para a humanidade,” ele disse em comentários que foram aplaudidos por usuários de Internet chineses.

“Alguns estrangeiros de barriga cheia e sem nada de útil a fazer passaram a lançar acusações contra nós,” ele prosseguiu. “Em primeiro lugar, a China não exporta a revolução; em segundo lugar, ela não exporta fome nem pobreza; e, em terceiro, ela não engana você. Então, há algo a mais a ser dito?” [44]

A estratégia chinesa pode ser entendida como uma reação aos resultados do modelo soviético, que abertamente se alinhou aos projetos emancipatórios em todo o mundo. Embora heroica, essa bravata permitiu que os capitalistas construíssem e propagassem narrativas de invasões comunistas iminentes, o que, por sua vez, criou as condições para o surgimento de cercos econômicos que isolaram e, em última análise, destruíram projetos socialistas dependentes.

Desde 1950, Deng Xiaoping estipulou os princípios básicos de uma estratégia alternativa:

Caso os estratos superiores não aprovem o nosso plano, devemos desistir, pois somente o consentimento deles conta. Por quê? Porque, devido às nossas peculiaridades históricas, políticas e econômicas, os estratos superiores detêm a principal influência em áreas de nacionalidade minoritária. As forças progressivas lá são débeis e exercem pouca influência. No futuro, contudo, quando as forças progressistas se expandirem, elas exercerão uma influência muito grande, embora não tenham um impacto decisivo no momento. [45]

Em termos metafóricos, a URSS ajudou as forças revolucionárias a atravessar o rio, um rio que eles jamais seriam fortes o suficiente para cruzar por conta própria. A China, por sua vez, fica do outro lado do rio, oferecendo ajuda para aqueles que conseguem cruzá-lo. O histórico da China, de desafiar as sanções estadunidenses contra Cuba, Coreia Popular e Venezuela, por si só, não ajuda nenhum partido revolucionário individual a ser bem-sucedido. Porém, aqueles que conseguem ser bem-sucedidos sabem que não terão de lidar com os subterfúgios dos EUA sem apoio. Uma vez mais, o sucesso ou fracasso de qualquer revolução dependerá das forças nacionais, não de Washington, como um deus ex machina.

Yanis Varoufakis explica como esse respeito e solidariedade por crescentes “forças progressistas” funciona na prática:

Quando fui Ministro da Fazenda, tive uma experiência muito interessante com a COSCO, uma das empresas nacionais chinesas que, no final, acabou comprando o Porto de Pireu.

Ao assumir o ministério, encontrei o contrato do governo anterior, que já havia vendido o Porto de Pireu aos chineses a preço de banana e com outras condições ridícula, sob a orientação, claro, do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Em outras palavras, como ministro, eu estava preso a uma negociação particular que era terrível para a Grécia. E fui até os chineses e discuti com eles, e fiquei realmente atônito.

Disse a eles: vocês estão pagando muito pouco, não estão se comprometendo com um nível suficiente de investimentos e estão tratando os nossos trabalhadores como descartáveis. Vocês estão efetivamente subcontratando a mão de obra para empresas horríveis, que exploram os trabalhadores, e não tenho como tratar disso de maneira efetiva. Propus a eles a renegociação do contrato. Então, em vez de obter 67% das ações do porto, eles obteriam — pelo mesmo preço — 51%. As ações remanescentes iriam para o sistema de previdência grego, a fim de fortalecer a capitalização das aposentadorias públicas. Em segundo lugar, quero que vocês se comprometam a investir € 180 milhões dentro de 12 meses. E, em terceiro lugar, é preciso haver negociações coletivas adequadas com os sindicatos e nenhuma subcontratação de mão de obra. E, para a minha surpresa, isso foi aceito!

Você consegue imaginar se fosse uma empresa alemã ou estadunidense? É isso o que estou dizendo. [6]

Esse não é um caso isolado. Uma pesquisa da London School of Economics concluiu um estudo de caso etíope com a descoberta de que “investimentos chineses na África têm tido efeitos de longo prazo ‘significativos e persistentemente positivos’ apesar das controvérsias”. [46] A Dra. Deborah Brautigam da Johns Hopkins University concorda:

A “Armadilha da Dívida” chinesa é um mito. A narrativa retrata erroneamente Beijing e os países em desenvolvimento com os quais a China se relaciona.

A nossa pesquisa mostra que os bancos chineses estão dispostos a reestruturar os termos dos empréstimos existentes e nunca apreenderam nenhum ativo de nenhum país, muito menos o Porto de Hambantota. A aquisição por uma empresa chinesa de uma participação majoritária no porto foi um conto edificante, mas não é aquele que muitas vezes ouvimos. Com uma nova administração em Washington, já passou da hora de sabermos a verdade sobre o caso fartamente, e talvez propositalmente, mal contado do Porto de Hambantota. [47]

Por que os capitalistas não conseguem replicar essas estratégias, mesmo cinicamente, em busca do lucro de longo prazo? Como disse Lênin, “o grau de concentração que foi alcançado força [os capitalistas] a adotar [o imperialismo], a fim de obter lucros.” Essas estratégias somente estão disponíveis para a China porque o PCC — a autoridade política e soberana na China — consegue oferecer um contraponto ao poder do capital.

Desigualdade e Socialismo

Dá para dizer que alguém que ganhe mais dinheiro do que você trabalha para você?

A ideia de um serviçal rico ou mesmo explorador pode parecer claramente ridícula, porém, na verdade, não é de toda absurda. Médicos, por exemplo, tendem a ser muito bem pagos em comparação a seus pacientes.

Veja esta conversa entre o autor alemão Emil Ludwig e J. V. Stalin, no qual, mais uma vez, um europeu ocidental parece intrigado com a sofisticação do georgiano:

Ludwig: Gostaria de lhe fazer a seguinte pergunta: o senhor fala de “equalização salarial”, dando ao termo uma pincelada distintamente irônica de sentido em relação à equalização geral. Mas, claro, a equalização geral é um ideal socialista.

Stalin: O tipo de socialismo sob o qual todo mundo receberia o mesmo pagamento, uma quantidade igual de carne e uma quantidade igual de pão, vestiria as mesmas roupas e receberia os mesmos bens nas mesmas quantidades — esse tipo de socialismo é desconhecido para o Marxismo.

Tudo o que o Marxismo diz é que até que as classes sejam finalmente abolidas e o trabalho tenha sido transformado de um meio de subsistência para a principal necessidade do homem, em trabalho voluntário para a sociedade, as pessoas serão pagas pelo seu esforço de acordo com o trabalho que realizarem. “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo seu trabalho.” Essa é a fórmula Marxista de socialismo, isto é, a fórmula do primeiro estágio do comunismo, da primeira etapa da sociedade comunista.

Somente no nível mais elevado do comunismo, somente em sua fase mais elevada, é que cada um [de nós], trabalhando de acordo com sua habilidade, será recompensado por seu trabalho de acordo com suas necessidades. “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”

É muito claro que as necessidades das pessoas variam e continuarão variando sob o socialismo. O socialismo jamais negou que as pessoas são diferentes em seus gostos, e na quantidade e na qualidade de suas necessidades. Leia como Marx criticou Stirner por sua tendência em favor do igualitarismo; leia a crítica de Marx ao Programa de Gotha, de 1875; leia os trabalhos subsequentes de Marx, Engels e Lênin, e você verá o modo extremamente crítico com que eles atacam o igualitarismo. O igualitarismo deve sua origem ao tipo de mentalidade camponesa individual, a psicologia de compartilhar e compartilhar igualmente, a psicologia do “comunismo” camponês primitivo. O igualitarismo não tem nada em comum com o socialismo marxista. Somente pessoas que desconhecem o marxismo podem acreditar na noção de que os bolcheviques russos querem agrupar toda a riqueza e, em seguida, compartilhá-la igualmente. Essa é a noção de pessoas que não têm nada em comum com o marxismo. É assim que essas pessoas, como os “comunistas” primitivos do tempo de [Oliver] Cromwell e da Revolução Francesa, imaginavam o comunismo para elas mesmas. Mas o marxismo e os bolcheviques russos não têm nada em comum com esses “comunistas” igualitários. [48]

A retórica da desigualdade de renda ignora que uma classe consegue colher os benefícios do trabalho por meio de investimentos públicos (por exemplo, um trem-bala), mesmo se os chefes ganharem mais como indivíduos. Os trabalhadores chineses estão vendo os frutos de seu trabalho apesar dos bilionários e da desigualdade. Recriminá-los por não demandar mais é recriminar a virtude da paciência.

Na verdade, muito daquilo que se passa por idealismo “socialista” no Ocidente se revela uma imagem espelhada da propaganda do empreendedorismo liberal-capitalista típico: “Serei o meu próprio chefe! Tocarei o meu próprio negócio!” Esse idealismo parece ignorar que a necessidade de gerenciamento é imposta a nós pela logística, não pelo capitalismo. Negar essa realidade resulta em fantasias de uma sincronia perfeita entre anarquistas perfeitamente autônomos.

O sonho do “Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado”, abraçado mais por comentaristas com vidas confortáveis do que por trabalhadores, também revela uma verdade inconveniente: os “socialistas” ocidentais têm alguma ciência de que um mundo mais igual significará a perda de privilégios do primeiro mundo. Eles não conseguem conceber que as coisas podem melhorar de maneira lenta e gradual, com muito esforço. E, assim, veem-se forçados a depreciar o caminho de auto-sacrifício chinês em favor de uma utopia voltada ao lazer. A verdade é que a vitória da classe trabalhadora sobre a classe capitalista anunciará uma era de trabalho duro, mas recompensador, em oposição ao trabalho duro sem recompensa.

Outra característica do socialismo ocidental emprestada da cultura cristã e predominante na nossa mídia de entretenimento é a ideia de que os puros de coração estão fadados a vencer contra todas as expectativas, de uma maneira ou de outra, absolvendo-nos da necessidade de fazer enormes sacrifícios. Isso não é nem um pouco realista. Deveríamos estar analisando de maneira tolerante como, ao longo da história, os socialistas administraram dificuldades, como acalmar as massas que desejavam bens de consumo estadunidenses (calças jeans na URSS), e a falta de ânimo – até mesmo o desapontamento — em relação às ofertas de bem-estar social (como a Saúde Universal no Canadá), em vez de enumerar os pecados, para ver se podemos justificar chamá-los de Judas.

Adotar uma mentalidade que reconheça as dificuldades enfrentadas pela União Soviética e Cuba, tanto com a diminuição do entusiasmo interno com o socialismo, quanto com o cerco hostil internacional, representa um grande progresso no sentido de eliminar o que inicialmente parecia ser uma acusação avassaladora contra a China.

Conclusão

Por que a China tem bilionários?

Gostaria que os leitores abandonassem seu senso de superioridade moral indevido, que faz com que Ocidentais chamem de maneira arrogante as escolhas da China como sendo traições. Em vez disso, gostaria que eles adotassem uma abordagem de curiosidade, que tente entender por que alguém como eles faria tais escolhas, ainda que não parecessem inicialmente óbvias. Com isso, o resultado é que, qualquer um, e não apenas “estudiosos” e “especialistas”, podem participar da conversa, simplesmente ao considerar as dificuldades e contradições que a China precisa administrar:

  • Muitas pessoas não são generosas — ao contrário, são absolutamente egoístas e gananciosas — , por isso, esse sonho faz com que trabalhem muito. Abrir espaço para sua ambição interrompe a fuga de talentos, o que resulta em um jogo de soma zero. Alguns dos mais perigosos adversários da União Soviética e de Cuba eram, na verdade, expatriados rancorosos, ao passo que, no caso da China, os capitalistas mais perversos, mas inteligentes, permanecem no segundo plano, dentro do alcance disciplinar do Partido Comunista.
  • Bilionários trabalham como “adaptadores” para o resto do mundo capitalista, permitindo o comércio e a colaboração, além de temperar a ansiedade que surge do medo do desconhecido, o que ajuda a prevenir o cerco.
  • Eles existem como bodes expiatórios, para o caso de haver necessidade. Pense em como as narrativas sobre a União Soviética atribuem todos os incidentes que ocorreram em sua história à maldade deliberada do Partido Comunista.

Elas não são exaustivas nem inteiramente elaboradas. Apesar do título deste ensaio, não pretendo oferecer uma resposta definitiva que satisfaça todos os leitores. Nem poderia esperar fazer isso. O meu objetivo é fazer com que reavaliemos a nossa abordagem em relação ao problema em tela. Ninguém sabe quais instituições precisam ser trocadas, em qual ordem e respeitando qual cronograma, porque ninguém jamais conseguir realizar a transição para o comunismo.

Os ocidentais precisam fantasiar menos a respeito da completa reorganização da sociedade em algo completamente irreconhecível e se concentrar mais em como assumir o controle da miséria que já existe, para que possam definir um curso melhor para seus países, como a China fez.

O Socialismo não é uma lista de verificação, e a experiência de países imperialistas ricos, onde capitalistas subornaram com o bem-estar as massas, para impedir que se revoltem, jamais pode ser seu parâmetro. O Socialismo é, e sempre foi, uma experiência em construção.


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