Amílcar Cabral
Publicação original: marxists.org
Edição: Basil Davidson, Roderic Day

Combater a mentira, não acreditar em vitórias fáceis (1965)

The Marxists Internet Archive (MIA) hosts an interesting short essay by Amílcar Cabral.

The website states that the essay is sourced from Revolution in Guinea (London, 1964), but the pre- and post-script to the essay explain that it was assembled together from extracts taken, already in English, from Basil Davidson’s The Liberation Of Guiné: Aspects Of An African Revolution (1969). I was unable to find that exact book, but Davidson released an expanded edition under the title No Fist Is Big Enough to Hide the Sky: The Liberation of Guinea-Bissau and Cape Verde, 1963-74 (1981), and this volume was available online. [1] It reveals that the individual excerpts were interspersed as part of a first-hand narrative, spanning several different chapters. The ultimate reference document is the “1965 General Directive” authored by Amílcar Cabral serving as the General Secretary of the African Party for the Independence of Guinea and Cape Verde (PAIGC).

Twitter user @estranjo helped me track down an original version of this document in Portuguese at the University of Lisbon archives. [2]

I’ve matched the English excerpts back into the original Portuguese, reordered it so that adjacent segments remain together, and expanded it with some extra excerpts I found interesting. Please refer back to the original source before using this document as reference!


Lembrar-se sempre de que o povo não luta por ideias, por coisas que estão na cabeça dos homens. O povo luta e aceita os sacrifícios exigidos pela luta, mas para obter vantagens materiais para poder viver em paz e melhor, para ver a sua vida progredir e para garantir o futuro dos seus filhos. [3]

O nosso Partido e as massas populares de [Guiné e] Cabo Verde têm estado a preparar-se activamente em todos os domínios necessários, para desencadear a luta armada no Arquipélago. Temos de fazer isso, mas devemos fazê-lo nas melhores condições e tendo em atenção as características próprias da luta armada de libertação nesse ambiente geográfico muito especial. Devemos andar depressa, mas não correr, sem oportunismo, sem entusiasmos que nos façam perder de vista a realidade concreta. Mais vale começar a luta armada com um atraso aparente, mas com garantias de continuidade, do que começá-la cedo ou em qualquer outro momento, sem ter realizadas todas as condições que garantem a sua continuidade e a vitória para o nosso povo.

Temos de reconhecer, com consciência, que há ainda muitas falhas e êrros na nossa acção, tanto no plano político como no plano militar, uma parte importante das coisas que deveríamos fazer não foram feitas & tempo ou não foram mesmo feitas.

Em várias regiões, e de uma maneira geral em todas as regiões, o trabalho político no seio do povo e das nossas forças armadas não foi feito convenientemente, os responsáveis não souberam ou não puderam realizar o trabalho permanente de mobilização, formação e organização política, determinado pela direcção superior do Partido. Há, em várias áreas do País e até no seio dos responsávels, uma tendência muito má para o comodismo, para o não cumprimento dos deveres do Partido e da luta, e até para uma certa desmobilização, que não tem sido combatida e liquidada.

No plano militar, muitos planos e objectivos estabelecidos pela direcção superior do Partido não foram realizados. Com os meios de que dispomos, podíamos ter feito mais e melhor. Vários responsáveis não souberam compreender bem as funções do Exército e das forças guerrilheiras, não coordenaram bem as acções dessas duas forças e, em alguns casos, delxaram-se dominar pela preocupação de defender as nossas posições, esquecendo que, para nós, a melhor defensiva é o ataque, a ofensiva, desenvolvimento constante da nossa luta armada.

Além disso, como prova o resultado da falta de trabalho político eficaz no seio das forças armadas, começou a aparecer uma certa mania de “militarismo” que levou alguns combatentes e até responsáveis a esquecer que nós somos militantes armados e não militares. Essa tendência deve ser combatida e liquidada com urgência no seio das F.A.R.P. Nos outros aspectos da nossa vida e da nossa luta (instrução, saúde, comércio, etc) também se cometeram êrros que, se se justificam pela nossa falta de experiência, devem no entanto ser eliminados por todos os meios necessários. [4]

Se dez homens vão a um campo de arroz e fazem o dia de trabalho de oito, não há razão para ficarem satisfeitos. É o mesmo em batalha. Se dez homens lutam como oito; isso não é suficiente. É sempre possível fazer mais. Algumas pessoas habituam-se à guerra, e quando se habituam a uma coisa que é o fim. Têm uma arma carregada, mas limitam-se a andar por aí. Ouve-se o motor no rio e não se usa a bazuca que se tem, por isso os barcos portugueses passam ilesos. Deixe-me repetir: é possível fazer mais. Temos de expulsar os portugueses. [5]

Nas regiões libertadas, tomar todas as medidas necessárias para tornar normal a vida política da população dessas regiões. Os comités de secção (tabancas) de zona e de região devem ser consolidados e funcionar normalmente. Faze reuniões frequentes com a população, para mantê-la ao corrente da luta, das palavras de ordem do Partido e das intenções criminosas do inimigo. [6]

Nas áreas ainda ocupadas pelo inimigo, reforçar o trabalho clandestino do Partido, a mobilização e a organização das populações, e preparar os militantes para agir e apolar como devem as acções dos nossos combatentes. Em particular, nas zonas urbanas (cidades e vilas) e dar palavras de ordem para o reforço do trabalho dos militantes, restabelecer as ligacões lá onde elas foram suspensas, preparar os membros do Partido, em especial os trabalhadores, para a acção contra o inimigo e para defesa dos nossos bens materiais. [7]

No selo das forças armadas (Exército e guerrilheiros) onde quer que estejam, desenvolver o trabalho político, fazer reuniões políticas frequentes, exigir trabalho político sério aos comissários políticos. Pôr a funcionar os Comités políticos do Exército popular, formado pelos comissários políticos e pelo comandante de cada unidade. Combater a mania do militarismo e fazer de cada combatente um militante exemplar do nosso Partido. [8]

Reforçar o trabalho político e de propaganda no melo das forças inimigas. Fazer cartazes, tracts, cartas, escrever coisas nas estradas, mandar recados, etc, para informar as forças inimigas da política do nosso Partido. Estabelecer contactos prudentes com elementos das forças inimigas que querem contactar-nos, agir com audácia e grande iniciativa nesse campo, para levar esses elementos a servirem o Partido e a nossa luta, contra a criminosa guerra colonial. Fazer tudo para ajudar os militares inimigos a desertarem, garantir-lhes, por todos os meios necessários, a segurança, de maneira a encorajá-los a tomarem a decisão de desertar. [9]

Fazer trabalho político no melo dos africanos que ainda servem o inimigo (civis e militares), levar esses irmãos a mudar de caminho, a servir o Partido no seio do inimigo ou a desertarem com armas e munições para se juntarem às nossas forças. Mas agir duro, liquidar todos aqueles que traiem conscientemente o nosso povo, todos aqueles que telmam em pegar em armas ao lado do inimigo, contra o nosso Partido e o nosso povo. [10]

Criar escolas e desenvolver a instrução em todas as regiões libertadas. Seleccionar jóvens (rapazes e raparigas) entre 14 e 20 anos, com pelo menos frequência da 4a classe, para serem aproveltados na preparação de quadros. Combater sem violência as práticas prejudicials, os aspectos negativos das crenças e tradições do nosso povo. Obrigar os responsáveis do Partido e todos os militantes dedicados, a melhorarem cada mais a sua formação cultural. […] [11]

Combater entre os jóvens, nomeadamente entre os mais idosos (mais de 20 anos) a mania de deixar o país para ir estudar, a ambição cega de ser doutor, o complexo de inferioridade e a ideia errada de que os que estudam e tiram cursos terão privilégios amanhã na nossa terra. Não aceitar como candidato para bolsas de estudo qualquer responsável do Partido com função de direcção, seja qual fôr o seu grau de instrução. Mas combater, sobretudo entre os responsáveis que se têm dedicado à luta, a má vontade contra os que estudam ou desejam estudar, o complexo que os leva a julgar que todos os estudantes são perigosos e futuros sabotadores do Partido. [12]

Educar-nos a nós próprios, educar os outros, a população em geral para combater o mêdo e a ignorância, para eliminar a pouco e poupo a submissão diante da natureza e das forças naturais que a nossa economia ainda não dominou. Convencer a pouco e pouco, em particular os militantes do Partido, que nós acabaremos por vencer o mêdo da natureza, que o homem é a força mais poderosa da natureza. [13]

Exigir aos responsáveis do Partido que se dediquem sériamente ao estudo, que se interessem pelas coisas e problemas da vida e da luta no seu aspecto fundamental, essencial, e não apenas nas suas aparências. Obrigar cada responsável a melhorar dia a dia os seus conhecimentos, a sua cultura, a sua formação política. Convencer cada um de que ninguém pode saber sem aprender e que a pessoa mais ignorante é aquela que sabe sem ter aprendido. Aprender na vida, aprender junto do nosso povo, aprender nos livros e na experiência dos outros. Aprender sempre.

(Os responsáveis devem acabar definitivamente com o espírito de criancice, de irresponsabilidade, de vida descuidada, de amizade baseada na “boa-vai-ela”, para encararem a vida com seriedade, plena consciência das responsabilidades, com a preocupação de cumprir bem, com camaradagem baseada no trabalho e no dever cumprido como verdadeiros responsáveis dum Partido e do nosso povo. Tudo isso não é contrário à alegria de viver, ao amor à vida e às distracções, à confiança no futuro, que devem animar a nossa acção, a nossa luta e o trabalho de cada um). [14]

Nunca foi tão grande certeza de que a nossa vitória depende principalmente da nossa acção. O inimigo também sabe isso, está cada dia mais desmoralizado e faz esforços desesperados para aguentar. Mas sabe que os seus dias estão contados e, por isso, tentará fazer maiores crimes contra o nosso povo e contra os nossos bens e riquezas.

Devemos, portanto, diante das perspectivas favoráveis da nossa luta, estudar cada problema em profundidade e encontrar para ele a melhor solução. Pensar para agir e agir para poder pensar melhor. Devemos, como sempre, encarar o presente e o futuro com optimismo, mas sem perder a consciência das realidades, em particular das dificuldades próprias à nossa luta. Devemos ter sempre bem presente e cumprir as palavras de ordem do nosso Partido: esperar o melhor, mas preparar-se para o pior. [15]

Praticar, em todos os aspectos da vida do Partido, a democracia revolucionária. Cada responsável deve assumir com coragem as suas responsabilidades, deve exigir dos outros o respeito pela sua actividade e deve respeltar a actividade dos outros. Não esconder nada às massas populares, não mentir, combater a mentira, não disfarçar as dificuldades, os êrros e insucessos, não acreditar em vitórias fáceis, nem nas aparências. [16]


  1. Basil Davidson, 1981. No Fist Is Big Enough to Hide the Sky: The Liberation of Guinea-Bissau and Cape Verde, 1963-74. [web] 

  2. Amílcar Cabral, 1965. «Palavras de Ordem Gerais: do camarada Amílcar Cabral aos responsáveis do Partido». [web] 

  3. IV, 2. 

  4. I. 

  5. This comes from a different source than the rest of the excerpts, a transcribed speech. See: Gerard Chaliand, Lutte Armee en Afrique, Maspero, Paris, 1967, pp. 50-1. The Portuguese in this case is translated back from English. — R. D. 

  6. II, 1. 

  7. II, 2. 

  8. II, 3. 

  9. II, 4. 

  10. II, 5. 

  11. VII, A. 

  12. VII, 5. 

  13. VII, 8. 

  14. VII, 9. 

  15. I. 

  16. VIII, 4.