W. E. B. Du Bois
Publicação original: marxists.org
Tradução: Red Yorkie

A Propósito de Stalin (1953)

Este é o obituário que o lendário autor pan-africano nascido nos EUA, W. E. B. Du Bois, dedicou a J. V. Stalin após a morte deste, em 5 de março de 1953. Ele foi publicado no National Guardian, um jornal de esquerda fundado em 1948 em Nova York, que parou de circular em 1992.


Joseph Stalin foi um grande homem; poucas outras personagens do século XX se aproximam de sua estatura. Era um sujeito calmo, corajoso e simples. Raramente perdia a compostura; considerava seus problemas lentamente, tomava decisões de maneira clara e firme; se, por um lado, jamais se entregava à ostentação, tampouco se abstinha de ocupar seu lugar de direito com dignidade. Apesar de ser filho de um servo, mantinha-se calmo ante os grandes, sem hesitação nem nervosismo. Mas também — e esta é a mais elevada prova de sua grandeza — conhecia o homem comum, sentia seus problemas, acompanhava seu destino.

Stalin não era uma pessoa de erudição convencional: era um homem que pensava profundamente, lia de maneira compassiva e ouvia a sabedoria, não interessando de onde viesse. Ele foi atacado e caluniado como poucos homens poderosos o foram; no entanto, raramente perdia a polidez e o equilíbrio; não permitia que o ataque o desviasse de suas convicções nem que o induzisse a abrir mão de posições que sabia serem corretas. Como uma das minorias desprezadas da humanidade, ele primeiro colocou a Rússia na senda para derrotar o preconceito racial e criar uma nação de seus 140 grupos sem destruir sua individualidade. [1] [2]

Seu julgamento de caráter era profundo. Ele logo percebeu o que estava por trás da extravagância e do exibicionismo de Trotsky, que enganou o mundo e especialmente os Estados Unidos. Hoje em dia, toda a atitude malcriada e insultuosa dos liberais nos EUA começa com a nossa aceitação ingênua da deslumbrante propaganda enganadora de Trotsky, que este espalhava ao redor do mundo. [3] Contra ela, Stalin manteve-se como uma rocha e não se desviou nem à esquerda nem à direita, à medida que continuava a avançar em direção a um socialismo real em vez da farsa oferecida por Trotsky.

Stalin teve de enfrentar três grandes decisões, e o fez de maneira magnífica: em primeiro lugar, o problema do campesinato, em seguida, o ataque da Europa Ocidental e, por fim, a Segunda Guerra Mundial. O camponês pobre russo era a vítima mais humilde do czarismo, do capitalismo e da Igreja Ortodoxa. Ele abandonou o “Paizinho Branco” [4] com facilidade; abriu mão de seus ícones de maneira perceptível, ainda que não imediatamente; mas seus kulaks se agarravam tenazmente ao capitalismo e estavam quase destruindo a revolução quando Stalin correu o risco de uma segunda revolução e expulsou os sanguessugas rurais. [5] [6]

Então veio a intervenção, a contínua ameaça de ataque por todas as nações, interrompida pela Depressão, apenas para ser reaberta pelo hitlerismo. Foi Stalin quem conduziu a União Soviética entre Cila e Caríbdis: a Europa Ocidental e os EUA estavam dispostos a traí-la ante o fascismo, somente para terem de implorar por sua ajuda na Segunda Guerra Mundial. [7] Uma pessoa menor que Stalin teria exigido vingança por Munique, mas ele teve a sabedoria de apenas pedir justiça para sua pátria. Roosevelt concordou com isso, mas Churchill desconversou. O Império Britânico propôs primeiro salvar-se na África e no sul da Europa, enquanto Hitler atacava os soviéticos. [8] [9]

Enquanto o Segundo Front se arrastava, Stalin não hesitou em seguir adiante pressionando. Ele correu o risco de arruinar completamente o socialismo para destruir as ditaduras de Hitler e Mussolini. Depois de Stalingrado, o mundo ocidental não sabia se chorava ou aplaudia. O custo da vitória da União Soviética foi terrível. Até hoje, o mundo exterior não faz ideia da dor, da perda e dos sacrifícios. É por sua liderança calma e austera nestas circunstâncias, entre outras, que surge a profunda adoração dos povos de todas as Rússias por Stalin.

Em seguida, veio o problema da Paz. Ainda que fosse difícil para a Europa e os EUA, era ainda mais difícil para Stalin e os soviéticos. Os governantes convencionais do mundo os odiavam e temiam, e o que não lhes faltava era vontade de ver o completo fracasso dessa tentativa de criar o socialismo. Ao mesmo tempo, o medo do Japão e da Ásia também era real. A diplomacia, portanto, consolidou-se, e Stalin foi escolhido como vítima. Ele foi convidado para se reunir com o imperialismo britânico, representado por sua aristocracia bem alimentada e treinada; e com a vasta riqueza e poder latente dos EUA, representado por seu líder mais liberal em meio século.

Aqui, Stalin mostrou sua real grandeza. Não se encolheu nem estufou o peito. Jamais presumiu. E jamais capitulou. Fez amizade com Roosevelt e ganhou o respeito de Churchill. [10] Não pediu adulação nem vingança. Foi equilibrado e conciliatório. Mas, no que considerava essencial, foi inflexível. Estava disposto a ressuscitar a Liga das Nações, que havia insultado os soviéticos. Estava disposto a lutar contra o Japão, ainda que esse país não apresentasse — naquele momento — nenhuma ameaça à União Soviética, e pudesse ser a morte do Império Britânico e do comércio estadunidense. Mas em dois pontos Stalin foi intransigente: O “Cordão Sanitário” de Clemenceau precisava ser devolvido aos soviéticos, de onde havia sido roubado como uma ameaça. [11] Os Balcãs não deveriam ser deixados indefesos ante a exploração ocidental para o benefício do monopólio da terra. Era necessário que os trabalhadores e camponeses de lá fossem ouvidos.

Assim era o homem que jaz morto, ainda alvo de ataques de chacais barulhentos e de homens malcriados de algumas partes do Ocidente destemperado. Na vida, ele sofreu insultos contínuos e calculados; foi forçado a tomar decisões amargas sob sua própria e solitária responsabilidade. Sua recompensa vem com a aclamação solene do homem comum.


  1. Stalin era georgiano, uma minoria étnica dentro do Império Russo. Escreveu uma obra teórica de importância suprema, O Marxismo e a Questão Nacional (1913), que confrontava a tensão entre o nacionalismo e o internacionalismo, e que lhe trouxe renome dentro das fileiras revolucionárias. [web] 

  2. Roland Boer traça a influência reverberante da obra teórica e da política decretada de Stalin em From Affirmative Action to Anti-Colonialism: Stalin and the Prehistory of Post-Colonialism (2016). [web] 

  3. Trotsky chegou até a concordar em falar no Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC) liderado pelo segregacionista ultraconservador Martin Dies em 1939, e escreveu um artigo para a revista Socialist Appeal explicando sua lógica (oposição a “formas totalitárias”). [web] 

  4. Era assim que as tropas russas se referiam ao czar. — R. Y. 

  5. Fraude, Fome e Fascismo: O Mito do Genocídio Ucraniano de Hitler a Harvard (1987) de Douglas Tottle é um fantástico relato de como a propaganda nazista distorceu completamente o entendimento desse período da história soviética no Ocidente. [web] 

  6. Outro documento interessante é a análise de Mark Tauger que desmonta um dos exemplos mais representativos do gênero, o livro A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia (2017) de Anne Applebaum. [web] 

  7. Harry Truman, Presidente dos EUA de 1945-53, como senador em 1941, infamemente argumentou: “Se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se virmos que a Rússia está ganhando, devemos ajudar a Alemanha, e, desse modo, deixá-los se matarem o máximo possível.” [web] 

  8. Em setembro de 1938, a Alemanha, o Reino Unido, a França e a Itália assinaram o “Acordo de Munique”, que permitiu que uma Alemanha nazista abertamente antissemita anexasse a região dos Sudetos da Tchecoslováquia e seus três milhões de habitantes. [web] 

  9. O pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop (“Germano-Soviético”) de agosto de 1939 somente foi assinado depois que o Reino Unido e a França rejeitaram a oferta soviética de enviar um milhão de soldados para parar Hitler como parte de uma frente unida antifascista. [web] 

  10. Roosevelt and Stalin: Portrait of a Partnership (2015) de Susan Butler descreve algumas dessas dinâmicas em maior profundidade. [web] 

  11. Em março de 1919, o primeiro ministro francês Georges Clemenceau conclamou os estados que haviam se separado do Império Russo ao longo da Primeira Guerra Mundial a formarem um pacto defensivo, a fim de isolar a União Soviética do resto da Europa Ocidental, e apoiou a iniciativa com a participação francesa em 1921. Ele cunhou o termo cordon sanitaire (cordão sanitário) para se referir a essa aliança. A agressão europeia encetada imediatamente após a revolução de 1917 marcou o início real da assim chamada “Guerra Fria”. [web]